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sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

O Caboclo serve a Água


pausa para respirar: vivemorre, grão. Brota e anota...

Como água, você é atravessado sem ser ferido - e reflete de volta, como espelho d'água, o que te atravessou.

O perdão suprime a dor.

Nada pega nada, nunca fui atingido, a dor foi um olhar de autopiedade sobre si - quando, desde o princípio, sabe-se: não se quebra um espelho d'água, só um de vidro.

A lente é o olhar que se quebra; o humor aquoso é indestrutível. Um olhar sobre si: não há dor, não há dilaceração e nem mesmo cicatriz. Sou ator, plástico, sou atriz.

A água absorve e expele. Cobre sobre um manto de cura. 

Nem mesmo eu posso me atingir. Só posso crer na ilusão de ser atingido.

Choverá, fluirá, gotejará, secará... eu sou a última gota seca, vida que brota do nada, das raízes rachadas que pintam de vida as fachadas mortas daquele sertão. Rachaduras perpassadas por luz no centro da terra, luz que brota como rosa da escuridão. 

Vida certa, no centro do seio, encontro entre luz e escuridão. Do foco morto e da observação à ação, vida, ânimo, movimento, criação. Sou sincero e esse é meu selo... A última gota no solo seco. A primeira gota que espremi do cacto: ativo, vivo, da morte à ressurreição. 

A sombra vaga para dar sentido à forma.

A luz rebola onde há condição. Mostrará a todos nós: sou água de enxurrada, ressaca, arrebentação. Chuva gotejando, solo sangrando, sobrando, tomando de praia a vida do mangue. Sou vermelho, sou sangue, sou gota em restituição. Vida que brota de dentro, do fundo... vida que nasce em improvável mundo. 

Do fundo ao centro, no centro do fundo: tudo está aqui e lá, simultaneamente, sou eu o tal Raimundo: mais vasto que nefasto, signo da imensidão, vida que deixa rastro, ritmo que pulsa são - na pausa cardíaca de um singelo coração.

A sombra vaga para dar sentido à forma. A luz move o ponteiro, é o sol. Da morte a vida, da lua, o signo: mãe, coração, menino. 


"Nenhuma árvore chega ao céu sem que suas raízes toquem o inferno."

Povo e Cidadão


o povo é sádico
o nobre, sábio 

o povo é prático
o nobre, pragmático

o povo é moderado
o nobre, diplomático

o povo é fiel
o nobre, leal

o castelão é virtuoso
o vilão, mau.

Espiral Corpórea


Eu quero fazer
sexo com você
até anoitecer
e o dia acabar
o ano passar
e a gente morrer.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Uma Lata de Voz


enquanto houver especulação
ou gentrificação
haverá pichação

enquanto nos oferecerem
as sobras do lixo
haverá pixo

enquanto houver excesso de dejeto
e resto desperdiçado de produção
haverá gente com jet e tatin na mão

o direito à voz é necessário
para o fazermos contrário
ao dever de permanecermos calados

as leis que proíbem a pichação garantem,
mediante o uso da força e da coerção
a propriedade privada e a privatização; 
me dá o teu ouvido
ou tomarei
de assalto tua visão
e indignarei
teu senso de ordem baseada na repressão

saí da periferia da periferia
para deixar na ordem do dia
meu recado marcado no teu mercado
não vou esquecer de ocupar
esse ou qualquer outro espaço

rabisco mais um muro comercial
e lá vem os gambé
eu meto o pé,
saio correndo e nem pisco
corro o muro, pixo tudo
do ladrilho ao chapisco

mais um muro pintado de publicidade
nessa cidade não pública
onde se compram paredes
para pichar propagandas;

o pixo é a mensagem das ruas
nas paredes antes sujas
representa tudo o que eu vejo
um graffite a mais na parede
já nos defende outro direito!

tiram a sopa dos pobres
jogam água nos locais
tratam gente vulnerável
pior do que tratam animais

pintam a cidade de vermelho
a cor de semáforo
que mais mata pobre de cansaço

e o pixo tá aqui
para dizer que os mortos não se calam
que nossos homens armados e mortos
voltarão em motos, prontos para o assalto

que mais nenhum Nicolás Sanchéz
passará outros seis anos desacudido

uma sacudida, duas...
menos um muro pelado no asfalto
um jovem a mais procurado
outro afro-guerrilheiro safo

tô salvo, avisa o delegado,
diz que estou trazendo giz colorido
para aquela parede branca
que ainda não foi riscada: 
eu tenho uma lata de voz
e isso aqui é um assalto à mão armada.

domingo, 15 de novembro de 2020

Na Esquina Distante


andar a pé até o ponto:
esperança é quase poder
financiar um carro usado

a alma do negócio
é a esperança
mas quem espera
não alcança

o negócio é tirar tudo
mas manter o horizonte
além das engrenagens
que giram e prensam
sonhos inalcançáveis,
logo ali,
na esquina da fábrica.

Poça Profunda


ordens demais
para um só ordenado

foi mandado embora
por chutar a bola
com o bico do pé
na trave do gol

como eu irei para casa
sem levar comigo
o próprio motivo
que me tirou do abrigo?

fugiu maltrapilho
à rua sem destino:
emitiu o cheque
omitiu o abuso
entrou com recurso
saiu menos humano

subtraiu-se tempo
transformado em valor;
espremeram seu caldo
para imprimir o saldo
maior do que o soldo
e menor do que o cabo

na rua a ponte se afoga
e os carros navegam
entre as poças de lama
que lhe cobrem a cara

o homem sem face
no meio da calçada;
suado de ponte
coberto de gente
e água de chuva
nas poças escuras

desemprego
chuva
sujeira
e fome

nada lhe sobrou além da ponte
felizmente mais profunda
do que a poça onde se via.

Coisas Públicas

são coisas públicas
o dinheiro no chão
o cone de rua
plaquinha de fumo
e discussão em bar

ponta de baseado
o canto do sabiá

o néctar das flores
a chuva na calçada
a música alta
o muro pelado
a pipa avoada
banho de borracha

a vida dos outros
saudade da nega
o mar à distância
e a vida a cantar

mas o ônibus
que é do povo
tem catraca.

Crianças Armadas


Espetáculo armado, sangue derramado
descendo pelas escadas,
pelas escadas do colégio abandonado
que tanto nos preocupa no noticiário

As notícias anunciam
o fim da fita
quem só vê não sente
e quem sente, grita

Ninguém ligou para o pequeno garoto
ninguém se importou
com o seu sentimento
apenas com seu rosto torto
esteve vivo por algum momento
mas agora está morto

Seu defeito era do tamanho de uma bala
ele sentava sozinho para comer
agora ele come na sala
agora todos podem ver
ele tem voz, ele fala...
nos recusamos a ouvir

Crianças com armas
carregam por aí suas agonias
munição e balas
combustível para suas fantasias

O monstro sempre tem uma origem
o pequeno garoto indefeso
a pequena garota virgem
o moleque acima do peso
agora são fogo e fuligem

Pequeno clandestino
a bebida é sua mãe
seu pai é o destino

A arma está em sua mão
ele segue seu caminho
o sangue está no chão
e ele permanece sozinho

É uma tragédia calculada
ninguém ousa se mexer
é o fim da jornada
e todos querem ver

E mais um suspiro é deixado
por um jovem calado
que cansou de viver

Ele vive para sempre conosco
dentro dessa verdade
ele sempre terá um rosto
na nossa insanidade.

Do 157 para o 174


*A polícia chega
e o menor corre*

Esfaqueia o velho
e pega o telefone
rouba e sequestra
a carteira, o homem

“Isso aqui é um assalto,
hahaha, mãos pro alto!”

- Eu sou só um pivete
mas cês vão me ouvir
cês matam na calada
então me matem aqui!

Na frente das câmeras
com tudo filmado
me senta o dedo
pra eu morrer gravado!

*A polícia negocia,
mas não é ouvida*

Vão ouvir o que eu tenho pra dizer
porque antes passei fome
mas agora eu vou vencer
- pois me disseram que quem perde
é vacilão, só um escravo do sistema
que perde a competição

Tô sem meios pra vencer
então vou na contramão!

Todo mundo vai me ouvir
e sentir minha fome
e se ela não passar,
eu mato esse homem!

Eu sou preto, sou feio
não tenho nenhum nome
estou farto, estou certo
me dá o megafone!

Me dá esse isqueiro
e o galão inteiro
vou queimar, sou guerreiro
quinze anos e sem dinheiro

Eu tô com fome porra!
vou te ver sangrar
eu também vou competir
e vou jogar pra ganhar

Eu não posso desistir
não vou sentar
nem chorar...
pois se você tem escola
eu... tenho pistola

Também tenho medo,
mas não nasci
pra me curvar
se alguém descer
da viatura
eu vou atirar!

*Pá, pá, pá!*

Todos podiam ouvir
muito bem os comentários:

- Muito triste, o desfecho
- É descaso social.
- O homem foi atendido...
- Deve ser policial

Disseram ser bandido
que foi ódio racial,
para um filho da desigualdade
a indiferença é fatal

Socorreram o refém
e fizeram o impossível
mas ninguém ligou pro negro
pois o negro é invisível.

Hino Nasci Mal


O petróleo no Ipiranga
Às margens sálicas,
E pesado é o grande elefante,
Tirou a liberdade de povos lúcidos,
E brilhou na sua tela alienante,

Seu senhor é um covarde,
Censurou sua cultura e sua sorte,
E no meio da atrocidade,
Nos vestiu e estuprou até a morte!

Ó pátria cega,
Idolatramos só covardes.

Brasil de roubo intenso e ilícito
O horror e a matança a gente esquece,
Mas o poema bem escrito e muito lírico
À imagem dos safados engrandece.

Cortaram tua própria natureza,
Teu machado foi escroto e impiedoso,
E teu futuro espelha incerteza.

Terra roubada,
entre outras mil és tu Brasil,
pátria dourada,
Levamos tua água em um cantil,
Te apontando um fuzil.

Cobrado eternamente o terço “esplêndido”,
Ao som da refeição, teu osso duro,
Faturas ó ''senhor'' com toda América,
E compre o seu luxo com meu lucro.

Nossa terra, poluída,
Seus bisonhos fundos campos têm mais dores;
Nossos bosques têm feridas,
Nossas vidas entre porcos ditadores.

Ó pátria otária,
desgraçada,
alguém nos salve!

Brasil de horror eterno seja símbolo,
O escravo será sempre torturado,
E mire no quilombo desta fábula,
Pão no futuro e circo no passado.

Se ergue da justiça a própria morte,
Sem ter quem empurrar a gente chuta,
E cale com suborno quem lhe importe.

Terra ferrada.
Entre outras mil és tu Brasil pátria roubada,
Da ignorância e da mente servil,
Pro caralho Brasil.

Bala Perdida


vai a pé no chão de barro
o herói do povo
até ficar cansado

caminha cansado
até virar povo
por o pé no chão
e cair no barro

porque voltou ao trabalho
não nasceu quadrado o sol
mas viu o raio de luz
atravessando o estrado
e o estrago feito
na cama ao lado

talvez amanhã vá em cana
ou talvez, da próxima vez
a bala atravesse seu barraco
um pouco mais à esquerda.

Manutenção


acordo sem respirar
até a pausa para o café
como máquina
que emite fumaça
por onde passa

não paga
a hora extra não passa
e o relógio
que quase para
marca a pausa

ao meio dia
a máquina respira;
a gente a religa
para dela extrair
outras horas várias

tiro da marmita a goiaba
pauso para um cigarro
que fumarei de pé
e talvez até para um café
que me manterá acordado

o cigarro é limitado
como o tempo
de um intervalo completo

a guimba da goiaba
feita de cigarro
sem qualquer filtro
ou purificador de ar
esconde o verme
por trás da casca

a máquina
vestida de ferro
carrega
em seu regimento interno
o verme do senhor

suado de vapor
não há vazão
para a exaustão do motor

assim dizia
no manual de instruções:
a pausa e o intervalo
aumentam o rendimento
e a longevidade de uma máquina

trabalhar sem respirar
é morrer de “tragédia”
pouco depois dos 65,
vida útil de uma máquina
cansada de desempenhar
revoluções (in)completas.

Morte e Vida de um Silva


I

os pinos coloridos
deixados na estação
onde meu pai foi visto
o levaram pra prisão

meu pai não sobreviveu
ao Carandiru de Bangu I

àqueles pinos coloridos
deixo estes escritos:
me chamo João
não sou santo
e nem sou Cristo

II

a família unida
a arma dispara
a gente suspira

deixo o corpo morrer
a cada ar que puxo;
sinto o rato me roer
o nó desde o bucho

ouço o assoalho ranger:
a casa trepida
e a mesa vira;

cabeça baixa
mãos nos ouvidos
a gente se abaixa
direto pro chão

todos para baixo
o morro vai abaixo
facção por facção

"Deus está morto
Darwin faz as leis"
capítulo 4, versículo 3

III

guardo todo oxigênio
que consigo esconder
pois o ar que respiro
por aqui nos faz falta;

pegaram o seu Joca
botaram a culpa
na carteira vazia
e no celular que devia
ser pistola escondida

seu Joca fora culpado
de portar um celular caro;
pobre desarmado
não tem nada caro
e não tem mesmo
atestado pelo Cabo;

serviço de televisão
e internet à cabo
é com o próprio

o pobre que trabalha
só ganha o que perder

IV

tentei viver e esquecer do passado
mas eu cansei de pegar no pesado
e encarar perpétua a morte de lado;
se é para encarar a morte
que seja de frente
e que eu seja bem pago

por isso eu larguei a vida de trabalhador
para virar corredor e ser atleta da favela

eu vendia quentinhas
e todos os dias
ia passando nas vilas
entregando encomendas

pegava comanda por comanda;
agora pego comando do Comando
e entrego as encomendas
de Comendador à Japeri;

um dia como esses
desci pro asfalto,
tomei um esculacho
e perdi minha carga

Buscapé a carga
pra não queimar meu filme
sobreviver aqui
é ir morrendo a cada crime

V

no morro onde moro
se morre rápido;
morro até num bueiro
mas não sem dinheiro

vendo drogas e munição
para comprar o meu caixão
e cerra-lo bala à bala

vou te passar a visão:
fique tentando
ou morra milionário;
ladrão por ladrão
antes fiel soldado
que estelionatário

se é facção por facção
que se foda o Estado
porque bala de fora da lei
nunca acertou meu primo;

e eu que morro
cinco vezes a cada hora
já estaria morto
não estivesse escrevendo agora
mas meus irmãos
são analfabetos

VI

mamãe já me dizia:
se não puder dar presunto todo dia
não dê presunto nenhum dia
e hoje em dia
o que mais tem
é presunto por aí;

em marcha lenta
subi a ladeira
para os caras
me verem passar

parei,
os homens param
quem não pode
pagar

passei,
os caras passam
quem não pode
passar

suei,
na próxima
quem sabe
não subo;

eu nasci e cresci
em uma ocupação irregular
no meio da lama

da lama ao caos
só volto pra lama
com um presunto nas mãos.

sábado, 14 de novembro de 2020

Militarização Municipal


a prefeitura ordenou
que pichassem o asfalto

o funcionário pichou faixas brancas
para regular a travessia no semáforo

a prefeitura pichou semáforos
para regular o fluxo do tráfego
e o estado pichou UPP's
para regular o fluxo do tráfico

eu olhei as calçadas
e percebi algo:
não havia rampas
só havia mato

então imprimi
um manifesto em forma de desacato

subi na calçada
martelei o concreto
e aparei o mato

o policial veio de moto
viu que eu era alto
e me pediu uma foto

disse logo no ato
que minha identidade
não cabia no documento

ele me mandou entrar numa viatura
para punir meu desacato;
fui levado ao delegado
e de lá à ordem pública

o prefeito riu bem alto
quando me viu preso
por pichar ilegalmente
as pichações do governo.

Os Donos da História


Quem, quem escreve a História?
Pobres e escravos,
ou nobres, com conhecimento e oratória?
Homens revoltosos e bravos,
ou ricos, com fortunas e jóias?

Quem, quem se aproveita da História?
trabalhadores e produtores
ou impetuosos saqueadores?

Os homens que escrevem a História
são aqueles que a constroem?

Quem, quem constrói a História?
Aquele que possui ardil
ou o homem sem memória?
O homem que a conhece e a viu
ou o que porta um fuzil?

Constrói a história o homem que sente?
Aquele que canta e que dança,
que pinta e que mente?
Seria homem honesto, o cidadão
ou o homem perverso e doente?

Quem, quem escreve a História?
Aquele que constrói e a realiza
ou é aquele que toma e que pisa?

Quem, quem toma para si a História?
Seus povos que a mantém (ignorada)
ou aristocratas vencedores
com sua glória santificada?

Quem, quem faz a História?
Quem a viveu para perdê-la ou quem a esqueceu?
Quem sofreu no campo de batalha ou quem sobreviveu?

Quem, quem é dono da História?

Os homens que a fizeram com martelos e pregos,
que montaram estradas e construíram castelos,
homens que deram seu sangue e seus corpos
e ergueram com simples tijolos, monumentos belos.

A história pertence a vivos e mortos,
Nobres ignorantes, infelizes e cegos. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Amanhã


amanhã
tudo isso não vai ter sentido algum
vou olhar para o antes especial
sob a perspectiva do olhar comum

amanhã
nascerá um dia ensolarado
dentro de mim nublado
e o dia se fará noite
dentro de mim acabado

poderá ser o fim do mundo:
que importa esse muro
ou viver essa insensatez
vida após vida, outra vez?

feridas antes curadas
convertem-se
em dores acumuladas
dessa vida descartável
como a saudade,
a carência
e a miséria.

A Rosa no Centro


a rosa aflora onde há beleza
a beleza vem da relação
entre o coração e a natureza

ela cresce no verão
com o sol se vai mais velha
nova, ela trasborda
na presença da primavera

descansa, pede sombra, sobrevive e recomeça:
no outono é flor de fogo
e amarela, perde o tom;
de vermelha a marrom, fica branca como velha

morre, vira som, volta ao sol e nasce bela:
nasce rosa, doce flor, que renasce com ela;

é a primeira cor
o primeiro odor
a vista que toma a tela

folha usada, feita velha
nova vida, flor do campo
és camélia, és morango
dança doce tango à boca

rosa nova, novo amor
és toda e somente bela
és selvagem outra flor
vermelha feito guerra

e da semente nua nasce;
és virgem espinho belo
que negro me atravessa
a pele e rompe a carne;

o espinho me torce
o espírito entregue:
me come a cara em festa
e no peito o que me resta
pois é esta a natureza
da beleza canibalesca

vai ao fundo
cava e tira
planta outra
minha rosa;

chove
molha
cresce
desabrocha;

gira a Terra, vida nova
vira outra, toda forte:
é a rosa, toda esfera
é o brilho no olhar da fera
é a manhã depois da noite
a potência depois da tarde
a vida depois da morte
o amante depois da espera

a espira gira no centro
entre a compaixão
e o julgamento
ficando tão apenas
entre Atenas e Afrodite:
há quem duvide
e quem acredite!

sei quem eres e és quem eras:
eros em eras e rezas de rosas,
cestos, seios, baldes e rodas
aros e lousas, mães e esposas

és quem és, sombra e luz, elfa
som e alma, fúria calma, praia
um encontro, um alento, doce fé;
és pétala ao vento
um carnaval lento:
uma flor, uma moça, Tiphareth...

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

A Dama


a dama é uma personagem
mal acostumada
e de mente fraca

ela tem um castelo
e precisa ser salva
por um tipo babaca

entre a dama indefesa
e a rústica camponesa
eu prefiro ir colher batata.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Para Persistir


Olhe para o rosto
do trabalhador cansado

de que adianta lhe falar
sobre sua sujeição? 

olhe agora
mais uma vez
seus olhos suados de lágrima
seus punhos cansados de peso
sua garganta esgotada de fala

sua vida pesada
que caminha desassistida
para uma fila do SUS

e sua alma pesada
cujo peso da vida
por ela não se explica
nem nela se traduz

olhe novamente
para seu rosto cansado
e me diga se na vida
não vale a pena
lutar por alguém.

Licença Poética


Se aproximou
e peidou no microfone
os microtons
deixou no ar;
gases galáticos
ovos do jantar.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Leite Materno


Rômulo nasceu 
numa manjedoura
sua procriadora
logo enlouqueceu

não fui a Roma
mas tenho boca
peguei o barco
e levei o remo

rio acima fluí
pelas estepes;
vi a mãe louca
nutrir sua cria

que mulher és!
dando à loba
um filho teu
já que o leite
não lhe basta

a forma é fria
e a cara é feia
não nos importa
se é filho de Freya

o solo é frágil
o tempo é outro
o filho pródigo
nasceu de novo;

duma casca de ovo
nasceu sem nem ver
e não gigante
cíclope Jotun
como haveria de ser

mas o leite materno
da loba selvagem
o salvou do inverno
e da eterna friagem

oh, leite divino
insuficiente menino
de tal nutriente
que fê-lo proteico!

já estava feito
pegou o remo
e prometeu a si
à boca do Reno
ferir Fenrir
e então redimir
o irmão Abel
cujo leite nutriu
os olhos de mel

navegou pelo mar
do riacho leitoso
e encontrou o lobo
branco das estepes

deu a ele seu Uivo
avistou o pai louco
parou um pouco
e disse ao caronte:

esta alta barca
toda dourada de sol
vai aonde?

de fronte para o cão
a chuva caía forte
frio como o inferno
disse aquele homem:
para ser honesto...
de volta ao ventre.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Embrulho (III)


soco, enjoo
nojo, briga
tédio, vida
abrigo
medida
perigo
adrenalina

sopro, caos
céus, raios
botas
cigarros
tudo feio 

cidade
moda 
molha
vala 

vale 
vulva
velho 
vidro
espelho
navalha;

e a vida
vale
quase
nada.

Lixo Impensável/Enjoo (II)


ejacular tudo para fora
ganhar na gana
e ficar negativo;
em volta da cena
entorno do explosivo:
a tensão é o motivo
quero estar negativo.

Viscoso Molho de Vísceras (I)


I

ejacular tudo para fora
ganhar na gana
e ficar negativo

na câmara escura
música escura
câmera e filtro

II

os olhos e corvos
em volta da cena
balcãs nos balcões
feitos de madeira;

em busca de seda
macero o vidro
nitrato de prata
em torno do explosivo

III

e colada à cera
a pele gangrena;
o vômito na roda
pedaços de milho

em volta da cena
areia de arena
o vulto do sono
entorno do explosivo

IV

dentes, doentes, dores,
tiros:
quero matar meus amores
pra sufocar meus amigos;

tiros, sedas e nitro,
ponho tudo para dentro
nutro:
neutro fico entediado
- quero ficar negativo.

Para Colorir


Deixarei este poema
na mão de uma criança
com a firme esperança
que se há numa crença

para tanto, confiança
o fiz simples
de pouca presença
e larga lembrança

não pintei, nem curti
não mirei Renascença
fiz da folha promessa
e da fábula infância

folha no vento
vento na corda
vida no seio
cheio de dança

veio a mim como o vi
como a mim veio a mãe:
aquarela do lado
um autor e um quadro

um quadro todo branco
nesta flor aqui sem cor
em um singelo barranco
que inspirado esculpi

e o menino sorri
o sorriso amarelo
o pincel entre os dedos
a tinta e o castelo
- um castelo todo belo
Para Colorir.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

A Segunda Face


Antes que me invente 
e me faça em pedaços 
eu mesma faço! 

meu rosto seccionado 
todo ele em repolhos de retalhos 
um retrato vivo cujo vidro afiado 
é o caco inseguro, que insepulto 
separa-me da face 
corta-me a identidade
entranha-me ao oculto.

Para a Sereia do Fogo


Uiny soa como sereia ou fada
a face corada esconde a leoa;
pela pele dourada avistei em pessoa
o brilho trigal duma deusa encarnada

dessa doce visão emergiu o conflito
- que boca maldosa, que riso bonito!
do tamanho do céu em meu peito sem ar
merece ainda mais do que posso te dar...

posso tudo no profundo poço do teu olhar:
tirar-me a água da vida, a beleza do campo
o sustento do lar

se soubesses como a anseio em meu seio
deixarias a mim, belo serafim
das tuas seis asas um par

porque tens mais, certo como o fogo
fogo que me corta em teu semblante
fogo onde quero me deixar queimar

inundar-me por tuas áureas mechas
navegar-te pelas sufocantes várzeas
e nessas auroras madeixas
em incompletas horas várias
por onde vezes me deixas
tens o fogo que me devora

em vãs palavras te faço vaga essa casa:
para teu fogo dourado que me consome
e qualquer outro coração
de qualquer outro homem.

Não é um poema


Você chega em sua casa, toma seu banho quente, esquenta a comida no microondas, senta-se naquela poltrona confortável e assiste ao jogo na sua televisão de 50 polegadas.

De repente, bum.

Você está desempregado.

Luz é caro.
Gás é caro.
A poltrona vale
uma ida ao mercado
e você está ferrado.

E então, milagre: você está empregado.

Mas luz ainda é caro,
gás ainda é caro.
Você não pode assistir ao jogo,
você não pode andar de carro;
não pode pagar o colégio
do seu filho em Ricardo.

E então, bum...
Você está vendendo drogas:
o gás está sendo pago,
a poltrona está a salvo
e o jogo começa às 20:00.

Já não está desesperado
e agora todos respeitam
quem antes era "safado".
O saldo?
Carro
Internet
TV a cabo
Vida confortável...

E antes que você me condene:
abriria mão do videogame
ou suportaria o som da sirene
para tomar seu banho quente
quando viesse um dia frio?

Anos a frio no serviço para passar fio
meses no transporte cheio para vender fone
vendas e vendas sem ter você o seu telefone
décadas trabalhando até às 19:00 por algum homem:
tudo isso alimenta uma fome
o custo desonesto a se pagar pelo risco:
o risco do homem disponível
a abandonar essa honestidade indigna
de sequer poder ver uma World Series;

Lazer, prazer, mulher
o homem quer
o homem bum.

A Disney é para todos
basta ser Walt.




segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Monolito Dumont


a potência impoluta
da pedra polida
ferida vida
fogo, ferro
tecnologia

monumento a Ogum
monolito de Adão
fruto da atenção
ao suspiro do conflito:
o grito do canhão,
o sopro do dragão,
mistérios do Egito.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

América Latina


América
Saquarema dos Caramurus
e senhora de engenho
ordena à viuvinha Lucíola,
descendente dos Carandirus,
abandonar seus privilégios
de cotista na Universidade

numa outra cena
Iracema chora em Ipanema
esfregando o chão
da Senhorinha americana

embora Ipanema não goste
que Iracema guerreira venha
os pobres vão à praia
e os ricos levam a lenha.

Dispensado


Jorge trabalha muito
mora com sua família
e não vê suas filhas
há algumas semanas

ele gosta de escrever
mas não é bom no que faz
então faz somente
aquilo que é bom

sai pouco
dorme menos do que acorda

gosta de carros
e de cigarros
mas não tem nenhum

gosta de mulheres
e tem uma
ou duas

gosta do que sobra
e o leva à dispensa

Jorge não tem tempo
para coisas supérfluas
apenas para o essencial:
por isso cobra despesas
e corre atrás de juízo
para cobrir o prejuízo
que esvazia a dispensa

de tempos em tempos
deixa a empresa
almoça em casa
e faz dessa peça
a alegria da criançada 
sua filha de sete
e a outra de dois 

é um excelente marido
um honrado trabalhador
e um pai esforçado:
podem ir e perguntar
a qualquer um do bairro

toma café às cinco
para chegar à noite ileso
e liso,
come pão com margarina
passa a faca no pão
e recorta cupons
pra trocar num carrinho;

batente no trabalho
batente em casa
o chefe gostava
sua esposa, não;

um belo dia
a margarina acabou
e a Jorge restou
apenas a faca

maldição, Jorge!
faltavam apenas dois selos
para o tão sonhado
carro da sua filha...

esmagado pelo peso da dispensa
não conseguiu pensar
e nem escrever
nada que prestasse.

São João Medieval


o povo quer
alguém para botar na fogueira;
o barão quer
os restos para aquecer a lareira

na festa de São João
uns comem baião
e outros camarão
com vinho tinto de sangue

e o pobre busca embalar
um pobre menino
para empalar o bandido
num poste junino.

Iluminação Pública


se eu pudesse roubar
para ti o luar,
eu não roubaria

caso contrário,
só me restaria
um ou outro tema
para dar ao poema

sobraria à poesia
o mar
o céu
e a maresia;

ou quem sabe de tema
a garota de Ipanema
mas você é de Anchieta
e isso não faria sentido

se eu pudesse furtar
a luz da lua para nos iluminar
eu não furtaria
porque centenas de casais
órfãos eu deixaria

e eu não sou assim tão egoísta
a ponto de roubar a sua poesia
apenas para agradar
uma Maria qualquer.

Lembrete


compor sobre essa estrada
e o reflexo entre as pedras
na calçada molhada
em um dia de chuva.

Iniciativa Privada


iniciativa privada
a alma humana pelada
onde todos sorriem nas fotos
e longas carreiras valem relógios

um brinde, meu caro
aos velhos homens de negócios
aos seus acionistas e seus sócios

a empresa é minha segunda família
nela deposito todos os meus esforços
pois desejo ter algum dia
lugar chique para guardar os ossos

e nos momentos de ócio
invisto na minha carreira
para sustentar meu vício
faz parte do jogo, da arte
ossos do ofício

mas eu tenho um carro
um carro parado, estacionado
ou imóvel,
mais um automóvel
em um tráfego congestionado

tenho também um imóvel
imóvel e cheio de móveis
hotéis para me hospedar
e hipotecas para pagar

depois da festa do chefe da empresa
puxação de saco e dor de cabeça
sento-me na cadeira:
uma caneta, uma mesa
e vinte e nove relatórios por fazer,
mas não minha impecável barba

ajusto o justo cinto na calça
limpo minha baba
ponho a gravata
meu belo sapato lustrado
e meu terno bem engomado

devo produzir e produzir
até o derradeiro dia
da minha aposentadoria
ou até que eu morra
após a taquicardia
deixando por criar
meu filho e minha filha;

vou largando para trás
relatórios de escritório
nas mesas da firma
ao lado da guimba
de um cigarro apagado;

quando tudo se acabar
e eu me for, só
levarei meu paletó
minha mala
e meu cartão para sacar
algumas notas de vinte

e não é uma grande babaquice
viver, sonhar, lutar e morrer
por um relógio de aposentadoria
comprado na Rua Quinze?

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Indo Só


Escutei: o pássaro não volta
mas ele voltou
estacionou
me decidiu:
a libélula pousou
depois outra
enfim a mosca
ouvi zumbir:
meu caminho eu sigo
e os deixo para seguir.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Herança


esse era o tio rico
casa de tijolos
parede de chapisco

meu tio morava
na Rua dos Laranjais
porque Laranjeiras
fica longe demais

já a minha mamadeira 
Madureira
leito em pó
pau à pique

barraco
lona
zona
chão de barro

e a enchente
quando vem
atola o sapato,
engole a casa
é o cão de asa;

pagava tudo em dia
morava na periferia
vivia com minha tia

algum dinheiro tinha
tinha arma, tinha filha:
lá morou a vida inteira
e no morro morreria

me disse que ela é sua velha
que ainda toma banho de rio
e quando bate o frio
sai com a patroa pra passear

é sempre um tanto chocante
ver tevê na casa do tio rico
e descobrir que ele não é

gastou minha onda
um dia ainda serei rico
tão rico quanto foi meu tio.

Cinismo


Voltar-se à natureza
para se voltar contra
a civilização

um cínico,
Diógenes,
como um cão.

O Cínico


debocho das normas
das formas
de tudo o que for
imperativo temporal.

           Um PM


o exército existe
para varrer
o quartel
do exército.

Estafa


você tem um feriado
e um final de semana
sem sábado
para viver a sua vida
e voltar ao trabalho.

Para Fora


aqui
nessa cabeça que escorre para fora
caberia uma ideia

aqui
nesse espaço tomado pelo silêncio
caberia um poema

e sem esperança outra vez diremos
hoje é como ontem
esperemos.

Beleza Plástico


resisti em dizer,
mas Vinícius está certo
e ser bonita é essencial

como acordar
sem ver o céu?

como andar pela praia
sem olhar para o mar?

e como se apaixonar
sem perder o controle?

Vinícius tem razão
o belo é essencial à vida
mas a vida anda em falta
no mercado da beleza.

Negócio de Besouro


acorda às cinco
e sai sem banho

com a bota na boca da bunda
e a bunda na boca da rua
deixa a porta e fecha a casa

pé esquerdo na calçada
o direito já na rua
e direto na subida
encaminha até o ponto

ele pula o muro
escala o morro
pensa no esporro
conta a passagem

verifica o bolso
faltam trocados
já está atrasado
o pior há de vir

mas volta
volta para apanhar o casaco;

subiu e desceu o penhasco
rolando o que tinha consigo

as entranhas embrulhadas
as vias congestionadas
o ar pouco e a pressão alta;

de tanto entulhar gatilhos
pulou as cercas da estação
foi andando pelos trilhos
e por sorte, o trem passou

atravessou sentido central
correu para subir na plataforma
rolou a pedra até o trem
e seguiu acorrentado à hora

chegou ao ponto
bateu a chegada
pegou a caixa
e avistou o chefe

é tarde – disse, mascando algo;
leve sua encomenda ao morro!

então Sísifo voltou ao Vesúvio
rolou a pedra até o vulcão
deixou a bosta no chão
e jogou seu corpo na lava

seu relógio atrasado parou
seu terno sem cor se desfez
e a fragrância de lavanda
pôde sutilmente ser sentida
quando lavada fora fervida
pela convidativa fonte termal. 

Ouro Preto


eu sou um lugar
em preto e branco;
destacado um ponto
nenhum espanto

o ângulo parece favorecer
quem fez por desmerecer:
é de quem, afinal, a câmera?

de onde veio esse lugar
que aqui me tem?
vesti um terno
para estudar insuspeito

consultei fatos
revelei fotos
estudei feitos
e contei votos

subitamente vi a paisagem
descolorir artificialmente

era colorida?
nunca fora
era branca

vi cortarem árvores para vender madeira
e um só lápis para desenhar
o seringueiro por trás do látex

vi folhas brancas na nota de cem
azul para disfarçar

essa neutralidade colorida
disfarça a ausência de cor

descobri a minha:
cor do passado
cor de barro
céu tão negro
deus tão longe; 

cheiro de mato
de café torrado;
aroma de serragem
e ar de cerrado

uma regressão à plantação
vi nas raízes por debaixo da terra
a mistura tal que se fez à força;

o que sobrara ao dito mulato?
o mito claro do tal misturado
fruto do abuso justificado
na promoção da miscigenação;

agora toda cor
tem um lugar no nosso lugar:
um buraco no meio do nada
com cor de cacau
e cheiro de medo;

e pálido como cal
descobri o segredo
do chamado Azevedo:
sou preto por dentro
guerreiro, sou negro

pintei tudo de preto!
senti que no peito havia um grito
e que no seu mito não havia jeito

e não mais mudo
tornei-me sujeito
fiz rios das minas
e dos santos, exus

eu sou café sem leite
água de enxurrada
preto forte feito prata

sou política dessa memória
paisagem da história
que o pingado adoça
e faz lembrar a escura terra

quem subia a ladeira
era da cor desse ouro
vistosa como valiosa,
tão escura quanto eu

fui ouvir meu griot
e fui também lenda a ser cantada
avante a guarda
da rua sedenta por nosso sangue

peguei a enxada
cravei no chão
tirei a caveira
e levei na mão

vou pôr em exposição
dedos marcados de tinta escurecida
levando à mão a história esquecida

quando me viram
não precisei dizer nada:
o povo, é claro
branco de raiva

vou trazer todo lugar
a esse lugar
esse lugar que sou eu
onde os meus foram
aqueles que se foram
sem, no entanto,
causar espanto

fiz o espírito santo girar:
vi a terra sangrar
e depois escorrer
por um belo horizonte

nesse lugar cabe um estado
dentro do peito, uma nação:
você sabe de onde eu venho?
Você gosta desse lugar?

Estranhado


te levar a um lugar
um lugar legal
fora de ti
fora de ti
ou fora de mim
para fora estou
revolto
te envolvo em mim

te levar a um lugar
não conhece nenhum?
não está na cidade?
você quer
no vi da de
algo fora de mim
não te prometo nada
só um mergulho são
como porta de entrada
para dentro de mim
em minhas entranhas

te prometo ser quente e bom
mas você
deve ser devorada
dar indigestão
me devore de dentro pra fora;

quer um cara legal
eu te conheço bem
está entediada
quer um cara legal
eu te conheço bem
está em busca de um sol
porque dentro já não tem nada... 

belo vaso vazio
belo vaso vazio
minha namorada
uma jarra de sol
uma flor solitária
está em busca de um sol
de um lugar no jardim
algo fora de mim...
algo fora de mim... 

Desclassificação


- Bom dia, família. Disse Buzu, em tom arrastado, leve e escorregadio.
[02] - Faala aê, magrão...
[03] - Ooi, coisa fina.
[Buzu] - Aí, humanidade, na humildade, me arranja um cigarrin?
[01] - Se coça, grilo. Que isto, amizade? Sou um sujeito só, não humanidade...
[Buzu] - Ué... e qual a diferença? Não é o que todos somos? Pessoas, humanos? Dá no mesmo chamar de humanidade... humanidade não é de humano?
[01] - A diferença é que um é coletivo e o outro é eu e tu.
[Buzu] - Então é nós! Me arruma o cigarro?
[01] - Nós não, é cada um. Humanidade é coletivo de ser humano.
[Buzu] - Sei lá dessa fita, patrão, faltei a aula de plural. Que eu saiba, humanidade é característica ou adjetivo.
[01] - Então tu tá me dizendo que é elogio?
[Buzu] - Pode pá.
[01] - Então vem cá que te dou o cigarro. Puxa teu carro e pega o isqueiro.
[Buzu] - Valeu, sangue-bom...

*Um breve silêncio se interpôs entre o intercurso linguístico estabelecido na cela*

[01] - Se tu não soubesse o que eu te disse... o que seria humanidade pra você?
[Buzu] - Já disse, ora. Característica do que é humano ou adjetivo.
[01] - Não... tipo, pessoalmente, saca? O que a palavra te diz?
[Buzu] - Palavra não diz nada, é a gente que fala.
[01] - Num fode, Buzu. O que a palavra te faz sentir?
[Buzu] - Sei não. União... pertencimento, talvez. Não, já sei... reconhecimento! E pra tu?
[01] - Respeito. Tipo humildade, só que sem baixar a cabeça. Tipo o que os guardas num tem com nós.
[Buzu]- Podescrê.
[01] - Falta humanidade aqui.
[Buzu] - Mas as celas estão cheias de gente.
[01] - E por acaso tu já viu gente presa? Quem fica preso é bicho!
*Todos se entreolham, espantados*
[Buzu] - Pois eu vejo gente presa todo dia!
[01] - Vê gente presa? Então a gente pertence a este lugar? Merece essa gaiola?
[Buzu] - Acho que não... não sei.
[01] - Então para de moda, porra! Tu me entendeu. Falta humanidade aqui, mesmo cheio de gente pelos corredores...
[Buzu] - Podescrê...

*pausa: todos olham por alguns segundos para o chão, cabisbaixos. A pausa é rompida por Buzu, que levanta a cabeça para dizer*

- Aí, Marcin, acho que mudei o que pensava sobre a parada da humanidade.
[Marcinho] - E pensa o que, agora?
[Buzu] - Acho que é cu e língua.

*Risada geral*

[02] - Que porra é essa, Buzu? Tá na necessidade...
[Marcinho] - Hahaha!! Esse manja...
[03] - Adooro!
[Buzu] - Nada a ver, pô! Sou espada...
[02] - E por que cu e língua, então?
[Buzu] - Porque todo mundo tem. É um lance que aproxima geral. Todo mundo fala e pensa uma coisa. Todo mundo caga também.
[Marcinho] - Tu tá falando de igualdade?
[Buzu] - É esse lance daí...
[02] - Então como é que eu faço se eu quiser ter o teu?
[Buzu] - Tu espera eu arrancar tua pica com uma faca, desgraçado...
[Marcinho] - Parou com a viadagem! Tu tem razão, Buzu, cada um tem a própria língua e entende as coisas de um jeito, dá um sentido...
[03] - Do jeito que a discórdia reina aqui nesse muquiço, acho que cada um entende um sentido e dá o próprio jeito...
[02] - Cês tão falando merda, tem nada disso não... é questão de classificação das palavra, coisa de livro, grama... grama... aquela porra lá de português!
[Marcinho] - Que mané classe, num tem essa de classe porra nenhuma, aqui é todo mundo desclassificado.

*Outro flagrante silêncio dos detentos ensurdece a cela*

[Buzu] - Tem razão, classe é coisa de bacana, nois aqui em cana num tem desses lance...

*Dessa vez o silêncio se estende por um ou dois minutos, em um tipo de pausa que mistura constrangimento, arrependimento e dissabor*

- Aí, Marcin, pega o maço - Disse o 02, acrescentando em seguida: quero um cigarro também para arejar a cabeça e tirar esse mau-hálito da boca...

Sentar e Sentir


a verdade é que o verdadeiro poeta
é um velho zureta viciado em letra
que busca para si descrever a beleza
que encontra na musa dançando à mesa

queria ser a beleza
se mover com graça
mas fica sem graça
e acaba careta
num canto de orelha
espiando da caneta
a leoa dançar

ele entreolha e anota
tudo que lhe importa
a perder da memória
que a palavra eterniza

bem, talvez seja eu
que escuto o samba
gravo a letra
mas não largo o banco
ou o copo de cerveja.

A Corrida


à frente do tempo
corro para não ser capturado
mas canso, paro, sou atingido;
detido por um disparo
do qual não deveria ter fugido

veio como um estalo
gutural como mugido

nas teias do talento esquecido
tido em lento ritmo:
renascido o rebento
que enfim transcendeu o tempo
sendo por ele transcendido. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Capitães do Mato


Todos no campo
campo de gado
carne de corte
corte de cana
corpo no mato
fogo no corpo
e a bíblia na mão.

Colônia de Cegos

I

Suplico ao sacerdote Glauco:

onde está tu, digna liberdade?
o sol é geométrico...
que forma tem o céu?
e a pomba, que cor tem?

seria uma ironia ter frágil a íris escura
ou seriam os escuros todos daltônicos?

busco resposta no eco desse beco vazio
túneis verticais sem saída, voz ou vida:
mas não há céu, não há voz, não há cor;

onde está o meu valor?
atravessado por uma parede branca;
nada vejo, sinto dor:
onde está o meu valor?

uma luz
é o pastor
e ela é branca...
mas como esquenta;
a visão desorienta!
dá-me aqui o teu calor!

II

Aqui estou e sinto dor
onde está o meu valor? 

- aqui, só, quem sou?
e meu povo, onde está?
em toda parte, 
em todo lugar;
toda gente
toda frente
toda franja elementar

toda massa, contingente,
excedente, militar;
meu povo está em toda parte
mas não possui nenhum lugar

ter, essencialmente
é um direito deles sobre nós:
indago-me revolto
- onde está a nossa voz?

esperando outra vez
uma nova abolição
e que outra vez então
surja sobre esta turba
a sarjeta da insurreição.


Gabriel Cardozo

terça-feira, 25 de agosto de 2020

O Morto-Vivo


Zumbi morto!
Zumbi vivo!
Zumbi morto-vivo!

o congo amadurecido
o angolano alagoano
o cacique de Moçambique
Zumbi é rei, Zumbi é líder!

exu guerreiro
de preto e vermelho
a Zumbi entrego
meu ouro e chá 

pai dos negros
dos presos
dos sofredores;
quilombo sem Zumbi
padece de desamores

negro sem raízes
não tem Boa Esperança
nem herança
nem fogo
nem luta

sem passado, nem vontade
sem qualquer dignidade:
Zumbi no campo
Zumbi na cidade!

Zumbi é gente,
sonho
entidade

no altar condecorado
holandês não tem vez;
pernambucano bravo
baiano conjurado;

Zumbi é advogado
é abolicionista...
é descolonizador
dos senhores da Boa Vista

consciência quinta
quintessência negra
cuja regra não se desfaz
nas cinzas duma quarta
e vai além de novembro
e todas tolas farsas

Zumbi do candomblé
homem de raça
guerreiro de fé;
se bate o tambor
eu canto o Axé!

eu toco o atabaque
preparado pro ataque:
Zumbi é meu senhor
o raio de meu Xangô
e o cocar do meu avô;

Zumbi pisa no mato
cata a cobra branca
Boitatá maldita, caraíba
e parte-lhe a cabeça:
como a mula, fica sem

veloz como o caçador das matas
com setas e azagaias
Curupira das andanças e danças
que anda para frente
caminhando sob lanças 

exibindo suas tranças
vai Dandara à lutar;

ele corta o fogo com sua espada
é ele o nagô que nada
sobre as negras largas costas
onde navios trouxeram seus filhos
cujos filhos contaram histórias

morto feito povo
povo todo vivo
feito de um sonho
o mártir dividido

Zumbi ressuscita de um livro
recita-nos um verso
incita-nos ao quilombo
e nos salva todo o país
de Cabral e Colombo.

O Medo de Chorar Para Sempre


Sempre quis voar; não consegui.
Despejei sob a memória 
ruidosa e melancólica nostalgia

chorei tanto que perdi a substância;
entre as lamúrias infindas, tornei-me poça
virei água
perdi a forma
morri na praia

duma só vez a duna me engoliu a sina
os sinos dobravam sobre a igreja praieira
e a areia era coberta pela neblina citadina
onde a orla e a onda se tornaram coisa só

todos os medos sórdidos e insólitos
eram sólidos como a sombra solitária:
vagavam pelo vácuo do espaço
onde nada é claro e vida não há

a angústia era tanta que acelerava a célula
cada átomo parecia se partir
e no meio da escuridão assombrosa
vi a ambrosia na árvore saudosa

fui tocado por caloroso abraço
e fiquei leve tão leve que fui levado;
ao ser, como vento, ido ao espaço
o tempo questionou a sombra
que fez da carne um dia substância

eis tu, espião, ausência da essência
diga-me que é este absurdo breu
que molesta o vigia teu
ao lado do espelho, como vazio reflexo?;
o que é isso que sobe e se esvai
como livre pássaro, sem asas ou sonhos?

eis que a sombra, iluminada, disse:
isso é vapor, menos denso que o ar
donde tudo se faz para permanecer
e no todo se concentra para voltar
ao contrário de ti, que corre sem pés
como presente atrás do futuro
que se julgas infinito e absoluto
mas sequer existe, porque louco és

o sereno se esvai do pequeno corpo azul
esperança na gota de orvalho, nova manhã:
é vida!

voa leve, toma gosto, é tempo de pipa
sem hora para voltar à casa
ou lição qualquer por fazer;

a chama acesa lhe esquenta
alimenta o fogo, atenta a lenha;
não é medo, não é a morte:
é o prazer, é o prazer!

bem alto, vapor barato, subi
menos denso que o aparato
mais sólido que a sombra
mais velho do que o tempo
mais jovem do que a vida

preciptei-me ao antejulgar
a angústia pontiaguda
na "ponte" da impotente impaciência;
sou gás, sou fogo, sou leve consciência!

e foi nesse dia
que a essência deu à sombra substância 
que no aguardo agonizante
se pôde libertar...
e ver... e ser... e observar;

ao olhar para si, deixou de se olhar:
espelho marítimo
donde o som e o ritmo
compuseram o reflexo
revelando o luar
e a luz que lá 
sempre se oculta

debochada é a vida a se esconder na sombra;
ironia, não ria, que um dia é você lá
onde cada um é pétala da mesma flor
e todo mundo é o universo de um só

atemporal, maior que o ar
fui do chão ao céu;
e nesse calmo horizonte haverá tormenta
e um temporal me choverá no mar;
até lá, sou gaivota, sou nuvem passageira
descarregada, devagar, costumeira...

costurei meus medos na teia
queimei tudo na raiz da rosa
fiz da estrela cadente prosa
e no verso que me goza
afinal, voei...

Velha Gangorra Colorida


havia naquele parque florido campo
destaque para a pipoca:
eram orquídeas no canto da praça
que saltavam da barraca para fora;

o azul primaveril da gangorra
o balanço novo em folha
o ferro prateado ainda soldado
o orgulho que reluzia dia afora

todos iam ao campo àquele tempo
reunidos em rodas para jogar bola;
e o tal bom tempo também passou
e agora?

agora
o campo está abandonado
uma praça que não resistiu
ao custo de erodir

desapontado
sigo entre os botões não desabrochados;
os brinquedos desabrigados
se aglutinam à minha volta:
ilusões de restauração me forçam à revolta;
não consigo, sem mágoas, revoltar-me:
olho infértil o terreno desamparado

latão de lixo amarelo enferrujado
velha lata em formato de palhaço:
são ruínas de um reino desarrumado
de uma infância cujo menino foi rei

o antes vívido azul está agora desbotado;
o banco verde claro manchado de cloro
como se a chuva a cloro o tivesse lavado

o botão bonito desabotoado
a botina na latrina de um lixo;
o cadarço de tênis desamarrado
arremessado alto sobre o fio

o velho escorregador de ferro
foi de vermelho à alaranjado
laranja podre da qual sobrou somente a casca
e sementes que não vingaram pelo solo à jaza

a gangorra remoída, toda ela amolecida
tomada por poeira e comedores de madeira

unidas e aguerridas
as flores margaridas
à toda visão tomada
por tonéis em tons pastéis

tudo mais fora esquecido
enrolado no cartaz puído
desta terra ressequida
onde há tantas jazidas
todas elas em anéis

cor de disenteria na areia que foi castelo
desenterrado sem pudor à plena vista;
as pegadas na terra molhada marcada pelo chinelo
o orvalho eleva o olfato ao odor de uma velha brisa

balanços pendurados por velhas correntes de cobre
cobre enferrujado, marrom profundo;
pedras hostis, hastes quebradas e argolas rompidas
barras amassadas, peças descoloridas

mesas de jogos no concreto já apagadas
a pegada do tempo impressa na calçada
bancos com vigas há muito expostas
tampas de breja na mesa de apostas

contornada ela por suas escadas
à Igreja antes respeitada
nada sobrara senão o portão;
fora um dia alegria de dar graças
está hoje tomada toda pelo lixão

escoro-me sobre as baixas cercas
observo a cruz sob a frágil luz
que emana a manta da Santa da Conceição,
agachado sobre o muro de um mundo
cruzado ante a crise da divisão

calçadas rachadas, tomadas por manchas
poeira e sujeira
resíduos demais;
ruídos do impacto da ação desumana
duma espécie errante de erros fatais

e sobre os círculos dos bancos antes brancos
pixos;
vícios desse doentio cenário pós-apocalíptico

sob o avermelhado céu de uma tarde de outono
uma criança salta entre os bancos sujos
cobertos eles todos por limos e musgos

e desfrutando de um momento de emérito gozo
seguiu o infante tomado pelo instante
daquele tosco pedaço do próprio paraíso
proibido e perdido, tal como nascido, em Milton

a infância na esquina se põe
com o sol no distante horizonte

à envelhecida nostalgia nenhuma fonte
apenas a lembrança de ontem
que hoje decompõe a imagem no front
decupada para fora desta sanha culpada
que como se gente fosse fôra lá deixada
às tortas
para ser decapitada
entre as árvores mortas
rodeadas por caixas
papelão velho inútil
cobertas por cascas
inférteis ao solo

nesse quadro sem moldura
antigo e empoeirado
preguei torto na parede o velho retrato:
um moleque de rua
cujo castelo encantado fôra, senão pão
a promessa de um sonho
desses que a padaria jogou fora
desses com o qual sonhara João

João também fora jogado no lixo
e nele encontrou seu pão;
- Obrigado, meu pai, por me dar de comer,
amanhã vou ao parque se o tempo ceder
disse ele a si mesmo e se pôs a sorrir

mas choveu muito e já era inverno;
gripado, João foi assim mesmo
e essa foi a última vez que o vi
naquela praça morta
cuja graça fôra um dia
colorida e saudosa infância minha.

CIVILIDADES

            

            Um indiano resfriado sentou-se à mesa de um bar no coração de Londres e serviu uma xícara com chá branco, enquanto um britânico, curioso, observava. Reparou que o estrangeiro punha a água quente ao tempo em que sentava na cadeira e também na curva que faziam seus dedos em torno da xícara.

            Então, de curioso, o indiano passou logo a exótico: infusionou ali mesmo água de rosas e, surpreso por tal feito inusitado, o inglês, sentado em frente ao balcão, tomou um gole do seu chá preto. – Aquele tal é ousado, o paladar deve ter estragado depois de um ou dois tragos, ou quem sabe foi toda aquela pimenta que o povo dele aguenta comer.

         Não satisfeito com seu chá, o homem indiano, em seu elegante traje preto, moeu sobre o mesmo grãos de pimenta do reino. – Sabia que era uma questão de pimenta, mas ele está no Reino, afinal. É livre para unir ao seu chá o que bem quiser experimentar – matutou o outro.

            Então, de estrangeiro foi à estranho, quando de pronto adicionou canela em pau àquele chá tradicional. – Mas o que é isso? – meditou perplexo o inglês, enquanto esfriava seu chá. Pôs então anis e o outro não mais quis olhar; não pôde acreditar quando o estranho pôs noz-moscada no chá.

            A tolerância, tal como a pressão do pálido londrino, caiu significativamente. Então o indiano interviu mais uma vez apelando à civilidade do lorde inglês ao misturar no chá um punhado de açafrão. – Aí não! – pensou o homem em suas largas calças, enquanto firme apertava seu chapéu contra a mesa, como manda a boa etiqueta.

            No entanto, seu nojo logo se tornou buliçosa ira quando o indiano fora de exótico à selvagem, servindo-se de inúmeras colheres de açúcar refinado. Grosso, o anglo angustiado pôs seu chapéu sobre a cabeça e perdeu as estribeiras: – Mas o que é isso, seu porco incivilizado? Onde estão os seus modos? Essa é uma tradicional casa de chá londrina, não um lugar onde se vêm para tomar misturas e lavagens porcas como esta tua sobre a mesa!

            O silêncio ocupou a chaleira. A mosca, antes inquieta, cruzou o salão e pousou sobre a noz. Calmamente, o homem então adicionou cravo-da-índia ao chá sob o azul daquele céu de uma Londres primaveril e disse: – Você acha que este é seu reino? Acha que tem o direito de regular o meu chá? Qual será a próxima coisa que mo a de regular? As ceroulas que para dormir visto ou meu visto para viajar? E as meias minhas? Está boa e colorida ou comprida em demasia? Preferíeis vossa senhoria que eu a estique até a canela? Olhe bem para esse céu anil... eu vim por entre as nuvens voando quando por engano fui levado ao Brasil! Caro senhor, você sabe o quanto esta viagem me custou? Vi papoulas florescerem como erva daninha no meu jardim e então eu vim faminto para cá... agora querem mandar na maneira em como devo tomar o meu chá? Quem é você, por acaso, dono das ervas? O chá é meu e eu adoçarei até que me faça gosto... de que vale a liberdade de um homem se ele sequer pode temperar como bem entender seu chá em uma nobre casa? Melhor faria tendo ficado na Índia, onde respeitam minha casa e casta, ao invés de com gente incivilizada e selvagem como vocês britânicos, que acham que podem mandar e desmandar em tudo e todos, instituir o que é e o que não é tradicional, bom e belo, ruim e feio.

            O britânico pisou no freio: tinha agora olhar magrelo e arrependido. Disse então em baixo tom: – Desculpe-me, senhor, não vale a pena fazer guerra por um chá, tampouco por especiarias.  Então, mais calmo, o indiano replicou: – Mas já era tempo de vocês perceberem isso! Não adianta dizer uma liberdade e vender outra!

            E assim o tradicional chá preto daquele lorde esfriou. Achara-o amargo demais após esfriar e resolveu então descartá-lo. O índio pegou seu daime e tomou num vigoroso gole só, ao passo que a gripe passou. Depois de pagar pelo chá não tomado, fora o britânico com suas libras para casa.

            O tempo fechou e a chuva caiu. Sua esposa lhe preparou um chá para o acolher naquela finada tarde de céu acinzentado; acidentado e confuso, sorriu com os típicos dentes amarelados a ironia da corisa que lhe escorria pelo nariz. Resfriado em pleno sábado, não conseguiu do chá verde extrair nenhum sabor.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Me Picotaram o Quebra-Cabeças


vai ou racha,
se há um sentimento no peito, solta
até que dele não sobre nada
que em você faça uma volta
que faça sangrar, mas não faça falta;

sai da fossa,
sangre para fora da rachadura
a amargura sob a sala escura
afinal, é só morrer que passa
então vai ou racha
que rachado você já está.

Numa Noite Suja


Um corpo caído na varanda
um trago da maldita cana

Oito Presentes na sacada,
um velho copo
cheio de mágoa

um pouco de vinho do Porto
nesse copo meio vazio

a noite agitada me leva a brisa,
me chove os olhos,
me toma o fôlego

dentro da casa,
o cinzeiro em brasa
vinho tinto pelo carpete
e a sacada molhada
de vinho seco

o trigo no pão
o pão na mesa
a mesa na sala
o estrago no corpo

o frágil frasco sem conteúdo
nenhum gole ou faca à vista

Minha varanda cheia de sangue
minha Miranda toda sem jeito

minha surpresa no carro
e a dela,
no chão.

Fumo a rosa acesa
que trago no peito.

Carta por abrir,
a rosa vai ao chão
e o cravo busca
algo para se cravar;

E lá sou eu sujeito
de entregar flores
ou abrir cartas?

Sou lá eu homem
de sorrir ou amar?

Taco a taça pela escada
saco minha velha saída

descerei pela sacada
a expirar o fôlego
que me deu a taça

respiro
minha última
fumaça.

Sufoco o socorro dos berros
na madrugada sem ecos

estufo o peito,
socorro o sufoco
e dou-me aos becos

catam-me do lixo
ensacam os restos
longa noite pela manhã

perdão por não chegar às oito
bebi demais ao parar no posto

e aquele cigarro
ficou por ser fumado.
Duplo suicídio
e nenhum culpado.

sábado, 8 de agosto de 2020

Pingado Vermelho


A maior causa de morte
no Brasil foi o Café

mãos pretas e brancas
soterradas pelo café

industrializar o país
vendendo café

queimar café
quando é caro vender

torrar café
quando dá pra comprar

tomar café
depois de fazer

vender café
depois de queimar

plantar algodão
quando o café cansar a terra

devolver a terra
quando ela estiver cansada

vender a terra
para não ser invadida...

e tomar um café
preto
no final da tarde.

sábado, 1 de agosto de 2020

Desconstrução


acordo cedo
faço o café
coloco o cachorro para passear;
busco o jornal
pego a condução
chego no trabalho
e volto à casa sem ser assaltado;
vejo televisão 
e durmo no sofá

acordo café
pego cedo;
faço o cachorro colocar o jornal para passear;
busco trabalho
chego assaltado na condução;
sem ser a casa 
volto para o sofá 
e durmo na televisão

acordo assaltado
pego o cachorro,
a casa,
o jornal,
o trabalho,
a televisão
e a condução,
passo no café
e durmo em pé

acordo cachorro
pego o pé 
e coloco no sofá;
volto para passear
busco a televisão
ponho no jornal
e faço o café;
durmo no trabalho
e assalto a condução

acordo preso
leio livros
jogo bola
como mal
e sou feliz

acordo feliz
leio mal
como a bola
jogo livros 
e sou preso

acordo mal
como feliz
leio preso
sou jogo
bólo livros

acordo bola
leio feliz
como livros
jogo preso 
e mau sou

acôrdo sou
jogo feliz
leio presos
como mal
feliz livro! 

acordo presos
sou mau
jogo como nos livros 
que leio feliz

não acordo
sou como li nos livros:
um preso mau
que jogou feliz;

a rotina muda
para nos adequar a ela
sua maior tragédia 
é o dia seguinte.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Cachimbo Inglês


Ordenou o homem que fumava o cachimbo
o burocrata, logo abaixo, marcou o carimbo
o governador do estado, em sua mesa, rindo
o policial, por sua vez, espancava o menino

o menino saiu de casa brigado com o pai
irritadiço por descobrir a verdade, disse: sai!
o menino, negro, sem saber para onde ir, vai...
de frente com o policial, ele apanha, tenta fugir,
cai

o diretor do jornal manda encobrir
o chefe de imprensa ordena mentir
o jornalista é mandado à rua para cobrir
a polícia militar oculta, tentando omitir

a mãe chora, o pai comemora
a polícia se retira, o jornalista pira

e o homem que fumava o cachimbo
termina seu cachimbo.
Pleno domingo
barulho do lado de fora
a mãe do rapaz homossexual chora

o gordo homem sorriu 
e acendeu seu próximo cachimbo.

Estátua Viva


E a beleza dela lá continuava
no salão aberto
em exposição
sorrindo para todos
sem saber ao certo o porquê 

então a musa
cansou de posar
e saiu do quadro
pra pintar o pintor.

O Cavalheiro


O cavalheiro é um babaca
ele suja uma jaqueta
para servir de toalha

o cavalheiro é um mala 
entre ele e o canalha
eu prefiro o canalha.

Gravata Tropical


O homem de preto
com gravata vermelha
se crê superior
ao homem de laranja

coitado do homem
varrendo a calçada:
preto vestindo laranja

fosse ele branco
vestindo preto
mandaria o outro varrer
e se enforcaria
no sol quente de meio-dia
com sua gravata colorida.

Um Tempo à Tarde Para Viver


uma pausa antes de voltar ao dever
respirei sobre a boca do fogão que lentamente torturava a leiteira;
tirei a água do fogo, deixei de lado a luta e fui à ducha

tomei um banho gelado para resfriar o corpo e acordar o café
tomei o café quente para resfriar o dia e acordar o corpo
tirei o dia para esfriar a cabeça e aquecer a vida
aqueci a vida esfriando a cabeça ao acordar para o corpo

esqueci a xícara na pia perto da água de coco
voltei e me lembrei de preparar o chá
não é possível viver de café em café
acho que é melhor eu ir me hidratar

assim se fora o dia de folga que tirado de um sábado
e assim virá com a manhã de domingo meu carnaval...
e quer saber, Dorival...
segunda-feira faltarei ao trabalho.

sábado, 25 de julho de 2020

Serventia de José


I

José Cabral de Melo da Silva
viveu nas terras de São Pedro           
no agreste semiárido;
agredido pela seca
fugiu para São Paulo

é difícil elencar José como cidadão:
era filho de Francisco e neto de João;

Francisco foi ator de circo 
e João viveu de comércio
sua mãe morreu no hospício
e seu pai viveu de jogo
seu avô se perdeu no vício
e a avó morreu de desgosto;

nasceu em dia de comício
o filho de Francisco
que era neto de João;
batizado num domingo
fez primeira comunhão

II

ao longe no horizonte
o céu tão distante
prometia honesta chance
de um dia se ajeitar

em seu novo roçado conheceu um mineiro
o nome era Jorge, o sobrenome Ribeiro;
um garimpeiro de peixe que veio do norte
tentar contra a sorte em uma terra sem rio

Jorge bem queria a Silva
que tinha medo do mar
pensou em dar-lhe uma boia
mas sem boia iria afundar

III

Maria era a esposa de Jorge
que um dia saiu para pescar;
Maria foi a José e de pronto lhe disse:
vamo logo home, tome uma decisão!
pegue o peixe antes que fique azedo
deixe já  de ser mula e vá ser alazão!

mas José era azarão e disse logo duma vez:
- o senhor Joaquim também monta a cavalo...
pode até ser, José, mas cuida dele melhor, não cuida?
- pelo que soube, de carinho à ferradura!
e a ti, quanto ele paga? Meio tostão e uma dentadura?

-  pois então boa sorte que eu vou é membora!
então vá sem nada, seu frouxo, bicho, burro, trouxa
e deixa aqui tua marmita e a colcha!
homem que não quer nadar morre na beira da praia
sem nada na calça e sem nome nas costas

- não quero poder, Maria, quero viver a vida!
quero ser gente, correr livre
comprar um sonho, andar por aí...

e isto, tu não quer? – disse Maria
ao pôr em seus peitos as mãos de José
- o que é isto, Maria?
isto José, é poder!
- isso que é poder, assim, sem pudor?
nenhum, José. E agora? Tu não quer?

- ah, Maria, eu quero...
então ponha cá a tua máscara
que o baile logo vai começar
não se esqueça do que lhe dei

voltaremos a nos ver, Maria?
se Deus quiser, José, serei tua rainha
- e também minha coroa!

besta da peste, cê não entende é nada!
basta! vá antes que Lucíola volte
aquela desalmada quer fazer tua cabeça
desde que o marido Peri morreu

tem razão, Maria, vou e volto num pulo
serei mais ligeiro que pássaro no poleiro
coelho no cio ou gato no telhado
e miarei, te juro, uma serenata de amor

vá com pé de vento e volte em pé de valsa
te espero na balsa com o bálsamo na bolsa
não te demores porque o poder te aguarda...

ora essa, eu me vou é agora!
e voou José pela noite afora.

Carne Enlatada


O pássaro de ferro
é pesado demais para voar

e o bonde de aço
se arrasta pelo asfalto
levando consigo
o enjoo matinal
das rotinas não lidas no jornal

jornadas anônimas
páginas policiais
fatos nos jornais
que por vezes viram crônicas:
crônicas especiais
das vidas banais
dos homens comuns

trem bala não tem
mas tem bala no trem
artigos e bugigangas
para adiantar a vida
sempre corrida
que escorre entre as mangas

levados pelo destino
à várias direções;
aspirados pelos vagões
e pelas chapas de aço
que comprimem tanta
gente
em um mesmo espaço

nesses transportes públicos
temporariamente alugados
vão em filas, todos os dias
pela via Dutra e pela Brasil
gente de todos os cantos
que não mais cantam

horários, estações e ramais:
em seus trajetos matinais
enfrentam rotinas cíclicas
filas e filas de afazeres sacais

gente que vêm
da Maré
de Belém
de Magé
do Vintém

gente também
de Nova Iguaçu
de Cabuçu
de Comendador
da Ilha do Governador

gente ainda além
do Real Engenho
de Engenho de Dentro
e do Engenho Novo

seja qual for o destino
o navio negreiro leva
em benefício dos Governadores
a Maré de trabalhadores
a todos os seus Engenhos

percorrem as estações
sem nunca olhar para trás
sem poderem ver jamais
a primavera e os verões
que passam rápido demais.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Seringa


Vou embora para Itapetinga
apanhar cajás e beber tequila;
depois vou para Sepetiba
comer pitanga e beber pinga

rumarei talvez à Barra
que pela força dos ventos anônimos
levar-me-ão de volta aos antônimos
e quem sabe, senão Antônio
a algum melhor lugar

depois, quando cansado
pegarei meu copo de destilado
minhas frutas e meu passado
e rumarei para Ibiza
onde morreu minha bisa
e me morrerei eu também.


Gabriel Cardozo

terça-feira, 21 de julho de 2020

Oleiro


Escultura de sentimento
numa língua sem defeito;
argila e gesso no concerto concreto
de um conceito perfeito

não é burocracia do peito
nem é feito só de afeto;
é dizer de um jeito bonito
pelo efeito quando dito

é fluir emoção em íntimo ritmo
cantar sensação para fora de si.

Argumento de Francisco


Seu Armando Chico Paraná
senhor das terras lá do sul
chamou pra cá o pobre
e pediu pra vir as freira

os pobre vieram arar
trabalhar duro na terra;
as freira vieram orar
e benzer os cabrito 
bonito do seu Chico

borandá que Paraná chegou
Paraná é muito seco e o clima é muito frio
olha aí, meu senhor, onde é que vai chegar
quando os cachorro vier latir
e os carregadô de cana passar?

vinham todos de caravana
para os vinhedos de Paraná;
fugidos da cana
vieram para cá
onde viram nas uvas
uma terra pra pisar

prontos para colher milho
e encher a colher de fubá;
sabiam como moer cana
e reparti-la em seu sabá

ao ouvir João, disse Paraná:
boa gente não deixa o campo
isso é coisa de cigano
gente sem sobrenome
que não anda certo nem vale nada
e vem para cá cheia de vontades...

mas toda boa gente vem de longe
de um engenho lá de dentro
bem do fundo de cada roça
donde Judas perdeu as bota

tu questionas demais, João
e isso desagrada a Cristo
- mas Cristo em pessoa
não questionou a fé de Pedro?

Cruz é cruz e martírio é martírio
você é João e Cristo é Cristo
vê se atina para isso:
não atira pedra quem tem teto de vidro
agora rola a pedra e corta a cana
toma logo teu juízo
porque chefe é chefe e amigo é amigo

- João era amigo de Jesus!
e meu nome por acaso é Jesus?
- não é não senhor, nem se parece
e tu mais parece com um bicho
- que bom então, pois Francisco é amigo dos bicho
e até que tua esposa se parece com santa Clara

mas que abuso é esse, estrupício!?
- mas seu Pará...
Pará não, Paraná
olhe cá o castigo na mão
num me atente que sabe do preço
suplício é pouco pra todo esse abuso
ou você acha que a vida é mole feito Maria?

não é mole não, seu Paraná, mas é doce
doce feito doce de batata doce
cara de carinho e rica de desgosto
dura feito pé descalço em chão rachado

então se calce e tome rumo
que todo chão é solo;
tem solo pra gado
e tem chão pra carro
e você que não tem solo
precisa é de trabalho!

sim senhor, mas é claro
só que se tá frio
é porque falta agasalho
e se queimo o pé
é porque falta calçado...

ora moleque, não me amole com essa de pé
que eu andei foi asfalto
de camelo e descalço
produz logo o melaço
que tempo é caramelo

então João disse bem baixo
- duro mesmo é cascudo em bucho vazio
trabalhar de bolso cheio rende mais

bucho de bicho chucro não sabe de lucro
barriga se enche é com serviço
vai fazer teu caramelo
que eu ganho pra te pagar

então João se foi cabisbaixo
mas Paraná não era justo
e lhe deu colher de ferro:
empedrou foi tudo e sobrou foi caldo

saiu da cozinha arrasado
foi para o quarto do criado
e calçou seu velho chinelo
ao que veio à janela do sul
um belo quero-quero
quando do norte viria
um pica-pau amarelo

pássaro bonito tipo arara
solitário feito João
silencioso feito grilo
saudoso como Maranhão

ah, que saudade de casa!
que tempo mais frio
que terra mais feia!

assim vive João:
já não olha para o sol
já não mais visita o filho
já não há campo elísio
e sua canção de abrigo
não lhe colore o exílio

e o tal pássaro bonito
que apitou liberdade
fez da flor companheira
feito flor que abelha beija
pra fazer seu doce mel

João sai para encarar o mundo
imigrantes e famílias a passeio
vendo João com cara feia de fome
e recolhido em seu cantinho;
eles passarão, ele, passarinho.