segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Negócio de Besouro


acorda às cinco
e sai sem banho

com a bota na boca da bunda
e a bunda na boca da rua
deixa a porta e fecha a casa

pé esquerdo na calçada
o direito já na rua
e direto na subida
encaminha até o ponto

ele pula o muro
escala o morro
pensa no esporro
conta a passagem

verifica o bolso
faltam trocados
já está atrasado
o pior há de vir

mas volta
volta para apanhar o casaco;

subiu e desceu o penhasco
rolando o que tinha consigo

as entranhas embrulhadas
as vias congestionadas
o ar pouco e a pressão alta;

de tanto entulhar gatilhos
pulou as cercas da estação
foi andando pelos trilhos
e por sorte, o trem passou

atravessou sentido central
correu para subir na plataforma
rolou a pedra até o trem
e seguiu acorrentado à hora

chegou ao ponto
bateu a chegada
pegou a caixa
e avistou o chefe

é tarde – disse, mascando algo;
leve sua encomenda ao morro!

então Sísifo voltou ao Vesúvio
rolou a pedra até o vulcão
deixou a bosta no chão
e jogou seu corpo na lava

seu relógio atrasado parou
seu terno sem cor se desfez
e a fragrância de lavanda
pôde sutilmente ser sentida
quando lavada fora fervida
pela convidativa fonte termal. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário