sexta-feira, 7 de maio de 2021

Muralhas de Pandora


Em nós, muros
entre nós, névoa
entre a neblina
Trevas;
querer, ser, agir
tocar o outro
sentir o outro
olhar no espelho
ver-se cercado:
cercado de cercas
coberto de ausência
morada vazia
na caixa de nada.

Beat Me!


Malditos, ingratos, rebeldes e pacíficos
todos macacos malucos, cegos e surdos
que fizeram filhos
loucos e mudos;
mundo, vasto e imundo
quanta perna
trava-língua
me vou para a Argentina
viver de absurdo.

À Norma


Para eles, nós somos baratas
Poesia-barata, homem barata
eles leram Kafka
absurdo cotidiano e tóxico
e a beleza que está
no quintal exótico
do homem primitivo e escroto
que ousou sair do esgoto
para cagar no seu jardim

É um pouco erótico
pisar no outro
como ledo inseto
que te entretém?

Humanismo contraditório
Marquês você sabe quem

Tem ou não tem?
Temos molho, olho por olho
lemos Kafka também;

Temos sífilis e tuberculose
vocês têm escorbuto e nojo

temos tísica, chato e piolho;
temos Llosa, Lorca, Rosa,
Melo Neto e Donoso...
lemos Lombroso, Machado
e o Dostô também...
e a baiana, Cardoso
te garanto que ela tem.

Canto de Cansaço


sábado é dia santo
domingo é pranto
e segunda não é

aproveita o canto
a brisa
a pausa do almoço
o cigarro do café

durma moço
acorde macho
beije a mulher

batom no teu rosto
um gosto de beijo
um terço, um desejo
e uma vida de fé...

tu vinhas na ira
na ira que move
não antes das nove
acorde amanhã!

ilusões de boa vida me forçam à revolta;
não consigo, sem mágoas, revoltar-me...

sou homem comum
trabalhador do povo
grande apreciador
de batidas de coco;

e já frio como o almoço
marmita com ovo
que é a sustância da vida
substância ingrata
cuja a sentença é labuta
que é puta barata
cara de sustentar;

vida que é curta
pra tanta labuta
labuta comprida
- é a vida que há

meus inimigos gostam
de vinho do porto;
José tomaria
se fosse mais grato
vendesse o sapato
e fosse buscar

acordei cedo e não vi o dia
fiz da fé alegria
e fui trabalhar

feliz retornei
sem querer retornar;
dei adeus à Margarida
comi a margarina
deitei-me num canto
e dormi no sofá

tu vinhas na ira
na ira que move
não antes das nove
acorde amanhã!

No Deserto da Espera


No Deserto da Espera
sentei sufocado
segui uma rosa
perdi-me no cravo

cravei-me a caveira
sentei-me amargo
toquei na roseira
sangrei como gado!

cansei-me da espera
levantei de cansado
trilhei um caminho
que não vi ser trilhado!

esperei espelhado no desespero desamparado
não era necessário, vivi e morri;
deus a princípio riu um bocado
na esperança dessa roda que tinha eu dançado
quando enfim consciente, desbocado eu me ri.

Metamorfose do Homem Comum


o homem incerto
de ser um inseto
acorda intraquilo
de ser como Gregor

inquilino incrédulo
caiu em descrédito
por fruto de incesto
o julgam bastardo

Gregório foi à egrégora
por temer virar górgona
foi seguir santo padre
na então congregação

enquanto não vejo
percevejo no altar
não há espelho
onde possa eu mirar

somos todos insignificantes
insetos numa teia
somos apenas grãos de areia
à vontade D'ele comparados
mas antes engrumado
que todo engomado!

confabular mudanças
em casulos comuns
caixões formais;
dar asas às esperanças
e às fábulas medianas
crônicas larvais

metamorfose:
a mudança é perigosa demais

como a audácia do jardineiro
que lê um livro de botânica

do limpador de piscinas
que abre uma loja de filtros

do homem que renega a si
para voar e fugir
da humanidade que o caça.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Isso Não é Arte!


E se eu te dissesse que a música erudita
é fruto impoluto da dita antiga Roma rica
da parte pobre que produzia
distração para ser vendida...

E por acaso você sabia
que o artista, dia a dia,
sempre se prostituía
pra tentar ganhar a vida?

Que mecenas mercenário
vê na arte um bibelô?

Que o melhor empresário
músico de contrato
que não vive de bar em bar
nem sobrevive de salário
corta a carne e serve o som
para milhões de proletários?

Servem todo esse som
cujo dom aburguesado
dá o tom a todo álbum
para ser single comercial
de um próximo carnaval

Venda de alma vira letra
vira letra a ser vendida
e a arte prostituída
prostitui a todo artista;

Pois assim se sobrevive
na selva capitalista
ou é puta ou é dono
ou é pobre elitista

Era a miséria e demência
produto da sobrevivência
que o artista produzia
para sustentar a filha
- sua filha prostituída
a alma de todo artista.

O Louco Assalto do Não Estático


Forças em harmonia, estão ali, vida e morte,
concentradas, conjuradas e conjugadas...
inutilmente hei de estripa-las e contestá-las;

Mas é o drama, é a vida, é a força, a perda, a queda, alegria...
é sucumbir, cair, perder, resistir,
dobrar-se, torcer, sumir, morrer...
desistir, retomar, insistir, ceder;
 
é a vida-poder que atravessa você
e mostra o belo no fogo que lhe queima...
sem lhe queimar querer;

fogo invisível que queima sem arder
o fogo esperto do santo espírito,
espirro por excesso, gotas de prazer!
 
Além de mim e de você
PERDER, VIVER, PODER, MORRER.
 
Como sonho retumbante
a vida atravessa como rio às pressas,
flechas que cortam e furam com furor
ferozes santos que sucumbem ao temor
amor tão potente que causa ardor
flor tão perene nos toma de amor...
 
pedras podres sangram tinta...
tenho dez, tenho cem, tenho trinta!

e o sacrifício solícito parece-nos vício
parece-nos certo
parece suplício
 
parece-me mesmo que somos precipício
príncipes, dionísio,
luz no fim do túnel, tom vivo em desabrigo
apolos, abismos...
 
magnânima magnitude
magnética da juventude...
somos a flor possível
e o lodo necessário,
algo entre o ente e o vário,
o caos e o outro,
o pranto e a lágrima,
a carne e o sufoco,
o suor e a espada!

o poço e a estrada
tomado de assalto
o santo assaltou
a vida consumada!

enfim, hei de estar
entre o ser e o nada
o homem e o moço
o gênio e o louco!

na corda bamba
bambeio um pouco;

vã vaga a sombra
que visitou as entranhas estranhas das sombras astrais...
carne demais, vida demais, luz ressequida por entre os vitrais;
é vida na quietude, vibração prismática, cósmica, dores e paz
- o desejo pela vida ressoava a luz nos excessos d'umbrais

estáticas renasceram em movimentos ovais
as cólicas nas vidas dos úteros ancestrais;

vã dançou à sombra vaga
e visitou as entranhas estranhas astrais...
entranhou-se às entradas
e entupiu-lhe os vasos das cordas vitais!

dobra o sino
deus menino
para nosso bem;

vem de longe
para e fica
morde vento
vira cobra!

como monge
viro flor
comovida
dou a volta

o amor espelhado tomou São Tomé
e bento na fé benzeu a si mesmo
perdoou a si mesmo, elevou-se a si...
É um drama, levantei, aplaudi
e sorri!