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terça-feira, 12 de janeiro de 2021
Urucum
ara cum aro
se aro, ele nada
sem ar eu não aro
e o mundo se acaba
sem êra, nem bêra
colhi minhas pêra
levei-as pra feira
e fui trabalhar
e com ira
com birra
de tanta mentira
me fôra seu Bira
à roça plantar
por desgosto da vida
labuta comprida
vestiu sua calça
saudoso da terra
- deixou Itabira
lá fora chovia
e num ia pará;
e raiou novo dia
de canto se ouvia
cantar sabiá;
assim, sem mais
eu e seu Bira
subimos o morro
e fomos rezá:
"óro sem ôro?
cum ôro, senhoro
de novo né nosso
o terço e o quinto
sem ôro num óro"
do topo do templo
a cruz de Raimundo
caiu nesse mundo
tão vasto e profundo
uma vez ordenado
ordenou Pastor Paulo
buscarmos sinal;
no muro pousado
estaria um pardal
ao invés de pardal
pousou urubu
no escuro do morro
trazendo urucum
saímos insatisfeitos
pensando em direitos
gravados nos textos
evangelho das dores
eu quem sou
senão João?
sem feijão e sem pão
que come cum a mão
o que sobra do chão
lá na Ilha das Flores;
erro cum herdeiro
guerreiro Sendero
com sangue vermelho
sem ôro, sem muro
em cima do mundo;
e assim os patrão
se fôro sem giro:
sem giro, sem gira
com gira, sem lucro
sem lucro, sem acre
sem acre, sem terra
nem meia tigela
de Sierra Maestra
num tem óh!
que é burguês
tem só uh...
outra vez!
ado pelado,
sem espelho gelado
sem pelo,
sem fardo
o colonizado
sem nenhum soldado
sem eira, nem beira
sem dia de feira
sem arado ou trabalho
sem ira, Itabira
sem ouro, com reza
sem Acre, com guerra
e u que nus resta?
guerreiro Sendero
e Sierra Maestra.
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