segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Uma Lata de Voz


enquanto houver especulação
ou gentrificação
haverá pichação

enquanto nos oferecerem
as sobras do lixo
haverá pixo

enquanto houver excesso de dejeto
e resto desperdiçado de produção
haverá gente com jet e tatin na mão

o direito à voz é necessário
para o fazermos contrário
ao dever de permanecermos calados

as leis que proíbem a pichação garantem,
mediante o uso da força e da coerção
a propriedade privada e a privatização; 
me dá o teu ouvido
ou tomarei
de assalto tua visão
e indignarei
teu senso de ordem baseada na repressão

saí da periferia da periferia
para deixar na ordem do dia
meu recado marcado no teu mercado
não vou esquecer de ocupar
esse ou qualquer outro espaço

rabisco mais um muro comercial
e lá vem os gambé
eu meto o pé,
saio correndo e nem pisco
corro o muro, pixo tudo
do ladrilho ao chapisco

mais um muro pintado de publicidade
nessa cidade não pública
onde se compram paredes
para pichar propagandas;

o pixo é a mensagem das ruas
nas paredes antes sujas
representa tudo o que eu vejo
um graffite a mais na parede
já nos defende outro direito!

tiram a sopa dos pobres
jogam água nos locais
tratam gente vulnerável
pior do que tratam animais

pintam a cidade de vermelho
a cor de semáforo
que mais mata pobre de cansaço

e o pixo tá aqui
para dizer que os mortos não se calam
que nossos homens armados e mortos
voltarão em motos, prontos para o assalto

que mais nenhum Nicolás Sanchéz
passará outros seis anos desacudido

uma sacudida, duas...
menos um muro pelado no asfalto
um jovem a mais procurado
outro afro-guerrilheiro safo

tô salvo, avisa o delegado,
diz que estou trazendo giz colorido
para aquela parede branca
que ainda não foi riscada: 
eu tenho uma lata de voz
e isso aqui é um assalto à mão armada.

domingo, 15 de novembro de 2020

Na Esquina Distante


andar a pé até o ponto:
esperança é quase poder
financiar um carro usado

a alma do negócio
é a esperança
mas quem espera
não alcança

o negócio é tirar tudo
mas manter o horizonte
além das engrenagens
que giram e prensam
sonhos inalcançáveis,
logo ali,
na esquina da fábrica.

Poça Profunda


ordens demais
para um só ordenado

foi mandado embora
por chutar a bola
com o bico do pé
na trave do gol

como eu irei para casa
sem levar comigo
o próprio motivo
que me tirou do abrigo?

fugiu maltrapilho
à rua sem destino:
emitiu o cheque
omitiu o abuso
entrou com recurso
saiu menos humano

subtraiu-se tempo
transformado em valor;
espremeram seu caldo
para imprimir o saldo
maior do que o soldo
e menor do que o cabo

na rua a ponte se afoga
e os carros navegam
entre as poças de lama
que lhe cobrem a cara

o homem sem face
no meio da calçada;
suado de ponte
coberto de gente
e água de chuva
nas poças escuras

desemprego
chuva
sujeira
e fome

nada lhe sobrou além da ponte
felizmente mais profunda
do que a poça onde se via.

Coisas Públicas

são coisas públicas
o dinheiro no chão
o cone de rua
plaquinha de fumo
e discussão em bar

ponta de baseado
o canto do sabiá

o néctar das flores
a chuva na calçada
a música alta
o muro pelado
a pipa avoada
banho de borracha

a vida dos outros
saudade da nega
o mar à distância
e a vida a cantar

mas o ônibus
que é do povo
tem catraca.

Crianças Armadas


Espetáculo armado, sangue derramado
descendo pelas escadas,
pelas escadas do colégio abandonado
que tanto nos preocupa no noticiário

As notícias anunciam
o fim da fita
quem só vê não sente
e quem sente, grita

Ninguém ligou para o pequeno garoto
ninguém se importou
com o seu sentimento
apenas com seu rosto torto
esteve vivo por algum momento
mas agora está morto

Seu defeito era do tamanho de uma bala
ele sentava sozinho para comer
agora ele come na sala
agora todos podem ver
ele tem voz, ele fala...
nos recusamos a ouvir

Crianças com armas
carregam por aí suas agonias
munição e balas
combustível para suas fantasias

O monstro sempre tem uma origem
o pequeno garoto indefeso
a pequena garota virgem
o moleque acima do peso
agora são fogo e fuligem

Pequeno clandestino
a bebida é sua mãe
seu pai é o destino

A arma está em sua mão
ele segue seu caminho
o sangue está no chão
e ele permanece sozinho

É uma tragédia calculada
ninguém ousa se mexer
é o fim da jornada
e todos querem ver

E mais um suspiro é deixado
por um jovem calado
que cansou de viver

Ele vive para sempre conosco
dentro dessa verdade
ele sempre terá um rosto
na nossa insanidade.

Do 157 para o 174


*A polícia chega
e o menor corre*

Esfaqueia o velho
e pega o telefone
rouba e sequestra
a carteira, o homem

“Isso aqui é um assalto,
hahaha, mãos pro alto!”

- Eu sou só um pivete
mas cês vão me ouvir
cês matam na calada
então me matem aqui!

Na frente das câmeras
com tudo filmado
me senta o dedo
pra eu morrer gravado!

*A polícia negocia,
mas não é ouvida*

Vão ouvir o que eu tenho pra dizer
porque antes passei fome
mas agora eu vou vencer
- pois me disseram que quem perde
é vacilão, só um escravo do sistema
que perde a competição

Tô sem meios pra vencer
então vou na contramão!

Todo mundo vai me ouvir
e sentir minha fome
e se ela não passar,
eu mato esse homem!

Eu sou preto, sou feio
não tenho nenhum nome
estou farto, estou certo
me dá o megafone!

Me dá esse isqueiro
e o galão inteiro
vou queimar, sou guerreiro
quinze anos e sem dinheiro

Eu tô com fome porra!
vou te ver sangrar
eu também vou competir
e vou jogar pra ganhar

Eu não posso desistir
não vou sentar
nem chorar...
pois se você tem escola
eu... tenho pistola

Também tenho medo,
mas não nasci
pra me curvar
se alguém descer
da viatura
eu vou atirar!

*Pá, pá, pá!*

Todos podiam ouvir
muito bem os comentários:

- Muito triste, o desfecho
- É descaso social.
- O homem foi atendido...
- Deve ser policial

Disseram ser bandido
que foi ódio racial,
para um filho da desigualdade
a indiferença é fatal

Socorreram o refém
e fizeram o impossível
mas ninguém ligou pro negro
pois o negro é invisível.

Hino Nasci Mal


O petróleo no Ipiranga
Às margens sálicas,
E pesado é o grande elefante,
Tirou a liberdade de povos lúcidos,
E brilhou na sua tela alienante,

Seu senhor é um covarde,
Censurou sua cultura e sua sorte,
E no meio da atrocidade,
Nos vestiu e estuprou até a morte!

Ó pátria cega,
Idolatramos só covardes.

Brasil de roubo intenso e ilícito
O horror e a matança a gente esquece,
Mas o poema bem escrito e muito lírico
À imagem dos safados engrandece.

Cortaram tua própria natureza,
Teu machado foi escroto e impiedoso,
E teu futuro espelha incerteza.

Terra roubada,
entre outras mil és tu Brasil,
pátria dourada,
Levamos tua água em um cantil,
Te apontando um fuzil.

Cobrado eternamente o terço “esplêndido”,
Ao som da refeição, teu osso duro,
Faturas ó ''senhor'' com toda América,
E compre o seu luxo com meu lucro.

Nossa terra, poluída,
Seus bisonhos fundos campos têm mais dores;
Nossos bosques têm feridas,
Nossas vidas entre porcos ditadores.

Ó pátria otária,
desgraçada,
alguém nos salve!

Brasil de horror eterno seja símbolo,
O escravo será sempre torturado,
E mire no quilombo desta fábula,
Pão no futuro e circo no passado.

Se ergue da justiça a própria morte,
Sem ter quem empurrar a gente chuta,
E cale com suborno quem lhe importe.

Terra ferrada.
Entre outras mil és tu Brasil pátria roubada,
Da ignorância e da mente servil,
Pro caralho Brasil.

Bala Perdida


vai a pé no chão de barro
o herói do povo
até ficar cansado

caminha cansado
até virar povo
por o pé no chão
e cair no barro

porque voltou ao trabalho
não nasceu quadrado o sol
mas viu o raio de luz
atravessando o estrado
e o estrago feito
na cama ao lado

talvez amanhã vá em cana
ou talvez, da próxima vez
a bala atravesse seu barraco
um pouco mais à esquerda.

Manutenção


acordo sem respirar
até a pausa para o café
como máquina
que emite fumaça
por onde passa

não paga
a hora extra não passa
e o relógio
que quase para
marca a pausa

ao meio dia
a máquina respira;
a gente a religa
para dela extrair
outras horas várias

tiro da marmita a goiaba
pauso para um cigarro
que fumarei de pé
e talvez até para um café
que me manterá acordado

o cigarro é limitado
como o tempo
de um intervalo completo

a guimba da goiaba
feita de cigarro
sem qualquer filtro
ou purificador de ar
esconde o verme
por trás da casca

a máquina
vestida de ferro
carrega
em seu regimento interno
o verme do senhor

suado de vapor
não há vazão
para a exaustão do motor

assim dizia
no manual de instruções:
a pausa e o intervalo
aumentam o rendimento
e a longevidade de uma máquina

trabalhar sem respirar
é morrer de “tragédia”
pouco depois dos 65,
vida útil de uma máquina
cansada de desempenhar
revoluções (in)completas.

Morte e Vida de um Silva


I

os pinos coloridos
deixados na estação
onde meu pai foi visto
o levaram pra prisão

meu pai não sobreviveu
ao Carandiru de Bangu I

àqueles pinos coloridos
deixo estes escritos:
me chamo João
não sou santo
e nem sou Cristo

II

a família unida
a arma dispara
a gente suspira

deixo o corpo morrer
a cada ar que puxo;
sinto o rato me roer
o nó desde o bucho

ouço o assoalho ranger:
a casa trepida
e a mesa vira;

cabeça baixa
mãos nos ouvidos
a gente se abaixa
direto pro chão

todos para baixo
o morro vai abaixo
facção por facção

"Deus está morto
Darwin faz as leis"
capítulo 4, versículo 3

III

guardo todo oxigênio
que consigo esconder
pois o ar que respiro
por aqui nos faz falta;

pegaram o seu Joca
botaram a culpa
na carteira vazia
e no celular que devia
ser pistola escondida

seu Joca fora culpado
de portar um celular caro;
pobre desarmado
não tem nada caro
e não tem mesmo
atestado pelo Cabo;

serviço de televisão
e internet à cabo
é com o próprio

o pobre que trabalha
só ganha o que perder

IV

tentei viver e esquecer do passado
mas eu cansei de pegar no pesado
e encarar perpétua a morte de lado;
se é para encarar a morte
que seja de frente
e que eu seja bem pago

por isso eu larguei a vida de trabalhador
para virar corredor e ser atleta da favela

eu vendia quentinhas
e todos os dias
ia passando nas vilas
entregando encomendas

pegava comanda por comanda;
agora pego comando do Comando
e entrego as encomendas
de Comendador à Japeri;

um dia como esses
desci pro asfalto,
tomei um esculacho
e perdi minha carga

Buscapé a carga
pra não queimar meu filme
sobreviver aqui
é ir morrendo a cada crime

V

no morro onde moro
se morre rápido;
morro até num bueiro
mas não sem dinheiro

vendo drogas e munição
para comprar o meu caixão
e cerra-lo bala à bala

vou te passar a visão:
fique tentando
ou morra milionário;
ladrão por ladrão
antes fiel soldado
que estelionatário

se é facção por facção
que se foda o Estado
porque bala de fora da lei
nunca acertou meu primo;

e eu que morro
cinco vezes a cada hora
já estaria morto
não estivesse escrevendo agora
mas meus irmãos
são analfabetos

VI

mamãe já me dizia:
se não puder dar presunto todo dia
não dê presunto nenhum dia
e hoje em dia
o que mais tem
é presunto por aí;

em marcha lenta
subi a ladeira
para os caras
me verem passar

parei,
os homens param
quem não pode
pagar

passei,
os caras passam
quem não pode
passar

suei,
na próxima
quem sabe
não subo;

eu nasci e cresci
em uma ocupação irregular
no meio da lama

da lama ao caos
só volto pra lama
com um presunto nas mãos.