- Bom dia, família. Disse Buzu, em tom arrastado, leve e escorregadio.
[02] - Faala aê, magrão...
[03] - Ooi, coisa fina.
[Buzu] - Aí, humanidade, na humildade, me arranja um cigarrin?
[01] - Se coça, grilo. Que isto, amizade? Sou um sujeito só, não humanidade...
[Buzu] - Ué... e qual a diferença? Não é o que todos somos? Pessoas, humanos? Dá no mesmo chamar de humanidade... humanidade não é de humano?
[01] - A diferença é que um é coletivo e o outro é eu e tu.
[Buzu] - Então é nós! Me arruma o cigarro?
[01] - Nós não, é cada um. Humanidade é coletivo de ser humano.
[Buzu] - Sei lá dessa fita, patrão, faltei a aula de plural. Que eu saiba, humanidade é característica ou adjetivo.
[01] - Então tu tá me dizendo que é elogio?
[Buzu] - Pode pá.
[01] - Então vem cá que te dou o cigarro. Puxa teu carro e pega o isqueiro.
[Buzu] - Valeu, sangue-bom...
*Um breve silêncio se interpôs entre o intercurso linguístico estabelecido na cela*
[01] - Se tu não soubesse o que eu te disse... o que seria humanidade pra você?
[Buzu] - Já disse, ora. Característica do que é humano ou adjetivo.
[01] - Não... tipo, pessoalmente, saca? O que a palavra te diz?
[Buzu] - Palavra não diz nada, é a gente que fala.
[01] - Num fode, Buzu. O que a palavra te faz sentir?
[Buzu] - Sei não. União... pertencimento, talvez. Não, já sei... reconhecimento! E pra tu?
[01] - Respeito. Tipo humildade, só que sem baixar a cabeça. Tipo o que os guardas num tem com nós.
[Buzu]- Podescrê.
[01] - Falta humanidade aqui.
[Buzu] - Mas as celas estão cheias de gente.
[01] - E por acaso tu já viu gente presa? Quem fica preso é bicho!
*Todos se entreolham, espantados*
[Buzu] - Pois eu vejo gente presa todo dia!
[01] - Vê gente presa? Então a gente pertence a este lugar? Merece essa gaiola?
[Buzu] - Acho que não... não sei.
[01] - Então para de moda, porra! Tu me entendeu. Falta humanidade aqui, mesmo cheio de gente pelos corredores...
[Buzu] - Podescrê...
*pausa: todos olham por alguns segundos para o chão, cabisbaixos. A pausa é rompida por Buzu, que levanta a cabeça para dizer*
- Aí, Marcin, acho que mudei o que pensava sobre a parada da humanidade.
[Marcinho] - E pensa o que, agora?
[Buzu] - Acho que é cu e língua.
*Risada geral*
[02] - Que porra é essa, Buzu? Tá na necessidade...
[Marcinho] - Hahaha!! Esse manja...
[03] - Adooro!
[Buzu] - Nada a ver, pô! Sou espada...
[02] - E por que cu e língua, então?
[Buzu] - Porque todo mundo tem. É um lance que aproxima geral. Todo mundo fala e pensa uma coisa. Todo mundo caga também.
[Marcinho] - Tu tá falando de igualdade?
[Buzu] - É esse lance daí...
[02] - Então como é que eu faço se eu quiser ter o teu?
[Buzu] - Tu espera eu arrancar tua pica com uma faca, desgraçado...
[Marcinho] - Parou com a viadagem! Tu tem razão, Buzu, cada um tem a própria língua e entende as coisas de um jeito, dá um sentido...
[03] - Do jeito que a discórdia reina aqui nesse muquiço, acho que cada um entende um sentido e dá o próprio jeito...
[02] - Cês tão falando merda, tem nada disso não... é questão de classificação das palavra, coisa de livro, grama... grama... aquela porra lá de português!
[Marcinho] - Que mané classe, num tem essa de classe porra nenhuma, aqui é todo mundo desclassificado.
*Outro flagrante silêncio dos detentos ensurdece a cela*
[Buzu] - Tem razão, classe é coisa de bacana, nois aqui em cana num tem desses lance...
*Dessa vez o silêncio se estende por um ou dois minutos, em um tipo de pausa que mistura constrangimento, arrependimento e dissabor*
- Aí, Marcin, pega o maço - Disse o 02, acrescentando em seguida: quero um cigarro também para arejar a cabeça e tirar esse mau-hálito da boca...