quinta-feira, 10 de setembro de 2020

América Latina


América
Saquarema dos Caramurus
e senhora de engenho
ordena à viuvinha Lucíola,
descendente dos Carandirus,
abandonar seus privilégios
de cotista na Universidade

numa outra cena
Iracema chora em Ipanema
esfregando o chão
da Senhorinha americana

embora Ipanema não goste
que Iracema guerreira venha
os pobres vão à praia
e os ricos levam a lenha.

Dispensado


Jorge trabalha muito
mora com sua família
e não vê suas filhas
há algumas semanas

ele gosta de escrever
mas não é bom no que faz
então faz somente
aquilo que é bom

sai pouco
dorme menos do que acorda

gosta de carros
e de cigarros
mas não tem nenhum

gosta de mulheres
e tem uma
ou duas

gosta do que sobra
e o leva à dispensa

Jorge não tem tempo
para coisas supérfluas
apenas para o essencial:
por isso cobra despesas
e corre atrás de juízo
para cobrir o prejuízo
que esvazia a dispensa

de tempos em tempos
deixa a empresa
almoça em casa
e faz dessa peça
a alegria da criançada 
sua filha de sete
e a outra de dois 

é um excelente marido
um honrado trabalhador
e um pai esforçado:
podem ir e perguntar
a qualquer um do bairro

toma café às cinco
para chegar à noite ileso
e liso,
come pão com margarina
passa a faca no pão
e recorta cupons
pra trocar num carrinho;

batente no trabalho
batente em casa
o chefe gostava
sua esposa, não;

um belo dia
a margarina acabou
e a Jorge restou
apenas a faca

maldição, Jorge!
faltavam apenas dois selos
para o tão sonhado
carro da sua filha...

esmagado pelo peso da dispensa
não conseguiu pensar
e nem escrever
nada que prestasse.

São João Medieval


o povo quer
alguém para botar na fogueira;
o barão quer
os restos para aquecer a lareira

na festa de São João
uns comem baião
e outros camarão
com vinho tinto de sangue

e o pobre busca embalar
um pobre menino
para empalar o bandido
num poste junino.

Iluminação Pública


se eu pudesse roubar
para ti o luar,
eu não roubaria

caso contrário,
só me restaria
um ou outro tema
para dar ao poema

sobraria à poesia
o mar
o céu
e a maresia;

ou quem sabe de tema
a garota de Ipanema
mas você é de Anchieta
e isso não faria sentido

se eu pudesse furtar
a luz da lua para nos iluminar
eu não furtaria
porque centenas de casais
órfãos eu deixaria

e eu não sou assim tão egoísta
a ponto de roubar a sua poesia
apenas para agradar
uma Maria qualquer.

Lembrete


compor sobre essa estrada
e o reflexo entre as pedras
na calçada molhada
em um dia de chuva.

Iniciativa Privada


iniciativa privada
a alma humana pelada
onde todos sorriem nas fotos
e longas carreiras valem relógios

um brinde, meu caro
aos velhos homens de negócios
aos seus acionistas e seus sócios

a empresa é minha segunda família
nela deposito todos os meus esforços
pois desejo ter algum dia
lugar chique para guardar os ossos

e nos momentos de ócio
invisto na minha carreira
para sustentar meu vício
faz parte do jogo, da arte
ossos do ofício

mas eu tenho um carro
um carro parado, estacionado
ou imóvel,
mais um automóvel
em um tráfego congestionado

tenho também um imóvel
imóvel e cheio de móveis
hotéis para me hospedar
e hipotecas para pagar

depois da festa do chefe da empresa
puxação de saco e dor de cabeça
sento-me na cadeira:
uma caneta, uma mesa
e vinte e nove relatórios por fazer,
mas não minha impecável barba

ajusto o justo cinto na calça
limpo minha baba
ponho a gravata
meu belo sapato lustrado
e meu terno bem engomado

devo produzir e produzir
até o derradeiro dia
da minha aposentadoria
ou até que eu morra
após a taquicardia
deixando por criar
meu filho e minha filha;

vou largando para trás
relatórios de escritório
nas mesas da firma
ao lado da guimba
de um cigarro apagado;

quando tudo se acabar
e eu me for, só
levarei meu paletó
minha mala
e meu cartão para sacar
algumas notas de vinte

e não é uma grande babaquice
viver, sonhar, lutar e morrer
por um relógio de aposentadoria
comprado na Rua Quinze?

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Indo Só


Escutei: o pássaro não volta
mas ele voltou
estacionou
me decidiu:
a libélula pousou
depois outra
enfim a mosca
ouvi zumbir:
meu caminho eu sigo
e os deixo para seguir.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Herança


esse era o tio rico
casa de tijolos
parede de chapisco

meu tio morava
na Rua dos Laranjais
porque Laranjeiras
fica longe demais

já a minha mamadeira 
Madureira
leito em pó
pau à pique

barraco
lona
zona
chão de barro

e a enchente
quando vem
atola o sapato,
engole a casa
é o cão de asa;

pagava tudo em dia
morava na periferia
vivia com minha tia

algum dinheiro tinha
tinha arma, tinha filha:
lá morou a vida inteira
e no morro morreria

me disse que ela é sua velha
que ainda toma banho de rio
e quando bate o frio
sai com a patroa pra passear

é sempre um tanto chocante
ver tevê na casa do tio rico
e descobrir que ele não é

gastou minha onda
um dia ainda serei rico
tão rico quanto foi meu tio.

Cinismo


Voltar-se à natureza
para se voltar contra
a civilização

um cínico,
Diógenes,
como um cão.

O Cínico


debocho das normas
das formas
de tudo o que for
imperativo temporal.

           Um PM


o exército existe
para varrer
o quartel
do exército.

Estafa


você tem um feriado
e um final de semana
sem sábado
para viver a sua vida
e voltar ao trabalho.

Para Fora


aqui
nessa cabeça que escorre para fora
caberia uma ideia

aqui
nesse espaço tomado pelo silêncio
caberia um poema

e sem esperança outra vez diremos
hoje é como ontem
esperemos.

Beleza Plástico


resisti em dizer,
mas Vinícius está certo
e ser bonita é essencial

como acordar
sem ver o céu?

como andar pela praia
sem olhar para o mar?

e como se apaixonar
sem perder o controle?

Vinícius tem razão
o belo é essencial à vida
mas a vida anda em falta
no mercado da beleza.

Negócio de Besouro


acorda às cinco
e sai sem banho

com a bota na boca da bunda
e a bunda na boca da rua
deixa a porta e fecha a casa

pé esquerdo na calçada
o direito já na rua
e direto na subida
encaminha até o ponto

ele pula o muro
escala o morro
pensa no esporro
conta a passagem

verifica o bolso
faltam trocados
já está atrasado
o pior há de vir

mas volta
volta para apanhar o casaco;

subiu e desceu o penhasco
rolando o que tinha consigo

as entranhas embrulhadas
as vias congestionadas
o ar pouco e a pressão alta;

de tanto entulhar gatilhos
pulou as cercas da estação
foi andando pelos trilhos
e por sorte, o trem passou

atravessou sentido central
correu para subir na plataforma
rolou a pedra até o trem
e seguiu acorrentado à hora

chegou ao ponto
bateu a chegada
pegou a caixa
e avistou o chefe

é tarde – disse, mascando algo;
leve sua encomenda ao morro!

então Sísifo voltou ao Vesúvio
rolou a pedra até o vulcão
deixou a bosta no chão
e jogou seu corpo na lava

seu relógio atrasado parou
seu terno sem cor se desfez
e a fragrância de lavanda
pôde sutilmente ser sentida
quando lavada fora fervida
pela convidativa fonte termal. 

Ouro Preto


eu sou um lugar
em preto e branco;
destacado um ponto
nenhum espanto

o ângulo parece favorecer
quem fez por desmerecer:
é de quem, afinal, a câmera?

de onde veio esse lugar
que aqui me tem?
vesti um terno
para estudar insuspeito

consultei fatos
revelei fotos
estudei feitos
e contei votos

subitamente vi a paisagem
descolorir artificialmente

era colorida?
nunca fora
era branca

vi cortarem árvores para vender madeira
e um só lápis para desenhar
o seringueiro por trás do látex

vi folhas brancas na nota de cem
azul para disfarçar

essa neutralidade colorida
disfarça a ausência de cor

descobri a minha:
cor do passado
cor de barro
céu tão negro
deus tão longe; 

cheiro de mato
de café torrado;
aroma de serragem
e ar de cerrado

uma regressão à plantação
vi nas raízes por debaixo da terra
a mistura tal que se fez à força;

o que sobrara ao dito mulato?
o mito claro do tal misturado
fruto do abuso justificado
na promoção da miscigenação;

agora toda cor
tem um lugar no nosso lugar:
um buraco no meio do nada
com cor de cacau
e cheiro de medo;

e pálido como cal
descobri o segredo
do chamado Azevedo:
sou preto por dentro
guerreiro, sou negro

pintei tudo de preto!
senti que no peito havia um grito
e que no seu mito não havia jeito

e não mais mudo
tornei-me sujeito
fiz rios das minas
e dos santos, exus

eu sou café sem leite
água de enxurrada
preto forte feito prata

sou política dessa memória
paisagem da história
que o pingado adoça
e faz lembrar a escura terra

quem subia a ladeira
era da cor desse ouro
vistosa como valiosa,
tão escura quanto eu

fui ouvir meu griot
e fui também lenda a ser cantada
avante a guarda
da rua sedenta por nosso sangue

peguei a enxada
cravei no chão
tirei a caveira
e levei na mão

vou pôr em exposição
dedos marcados de tinta escurecida
levando à mão a história esquecida

quando me viram
não precisei dizer nada:
o povo, é claro
branco de raiva

vou trazer todo lugar
a esse lugar
esse lugar que sou eu
onde os meus foram
aqueles que se foram
sem, no entanto,
causar espanto

fiz o espírito santo girar:
vi a terra sangrar
e depois escorrer
por um belo horizonte

nesse lugar cabe um estado
dentro do peito, uma nação:
você sabe de onde eu venho?
Você gosta desse lugar?

Estranhado


te levar a um lugar
um lugar legal
fora de ti
fora de ti
ou fora de mim
para fora estou
revolto
te envolvo em mim

te levar a um lugar
não conhece nenhum?
não está na cidade?
você quer
no vi da de
algo fora de mim
não te prometo nada
só um mergulho são
como porta de entrada
para dentro de mim
em minhas entranhas

te prometo ser quente e bom
mas você
deve ser devorada
dar indigestão
me devore de dentro pra fora;

quer um cara legal
eu te conheço bem
está entediada
quer um cara legal
eu te conheço bem
está em busca de um sol
porque dentro já não tem nada... 

belo vaso vazio
belo vaso vazio
minha namorada
uma jarra de sol
uma flor solitária
está em busca de um sol
de um lugar no jardim
algo fora de mim...
algo fora de mim... 

Desclassificação


- Bom dia, família. Disse Buzu, em tom arrastado, leve e escorregadio.
[02] - Faala aê, magrão...
[03] - Ooi, coisa fina.
[Buzu] - Aí, humanidade, na humildade, me arranja um cigarrin?
[01] - Se coça, grilo. Que isto, amizade? Sou um sujeito só, não humanidade...
[Buzu] - Ué... e qual a diferença? Não é o que todos somos? Pessoas, humanos? Dá no mesmo chamar de humanidade... humanidade não é de humano?
[01] - A diferença é que um é coletivo e o outro é eu e tu.
[Buzu] - Então é nós! Me arruma o cigarro?
[01] - Nós não, é cada um. Humanidade é coletivo de ser humano.
[Buzu] - Sei lá dessa fita, patrão, faltei a aula de plural. Que eu saiba, humanidade é característica ou adjetivo.
[01] - Então tu tá me dizendo que é elogio?
[Buzu] - Pode pá.
[01] - Então vem cá que te dou o cigarro. Puxa teu carro e pega o isqueiro.
[Buzu] - Valeu, sangue-bom...

*Um breve silêncio se interpôs entre o intercurso linguístico estabelecido na cela*

[01] - Se tu não soubesse o que eu te disse... o que seria humanidade pra você?
[Buzu] - Já disse, ora. Característica do que é humano ou adjetivo.
[01] - Não... tipo, pessoalmente, saca? O que a palavra te diz?
[Buzu] - Palavra não diz nada, é a gente que fala.
[01] - Num fode, Buzu. O que a palavra te faz sentir?
[Buzu] - Sei não. União... pertencimento, talvez. Não, já sei... reconhecimento! E pra tu?
[01] - Respeito. Tipo humildade, só que sem baixar a cabeça. Tipo o que os guardas num tem com nós.
[Buzu]- Podescrê.
[01] - Falta humanidade aqui.
[Buzu] - Mas as celas estão cheias de gente.
[01] - E por acaso tu já viu gente presa? Quem fica preso é bicho!
*Todos se entreolham, espantados*
[Buzu] - Pois eu vejo gente presa todo dia!
[01] - Vê gente presa? Então a gente pertence a este lugar? Merece essa gaiola?
[Buzu] - Acho que não... não sei.
[01] - Então para de moda, porra! Tu me entendeu. Falta humanidade aqui, mesmo cheio de gente pelos corredores...
[Buzu] - Podescrê...

*pausa: todos olham por alguns segundos para o chão, cabisbaixos. A pausa é rompida por Buzu, que levanta a cabeça para dizer*

- Aí, Marcin, acho que mudei o que pensava sobre a parada da humanidade.
[Marcinho] - E pensa o que, agora?
[Buzu] - Acho que é cu e língua.

*Risada geral*

[02] - Que porra é essa, Buzu? Tá na necessidade...
[Marcinho] - Hahaha!! Esse manja...
[03] - Adooro!
[Buzu] - Nada a ver, pô! Sou espada...
[02] - E por que cu e língua, então?
[Buzu] - Porque todo mundo tem. É um lance que aproxima geral. Todo mundo fala e pensa uma coisa. Todo mundo caga também.
[Marcinho] - Tu tá falando de igualdade?
[Buzu] - É esse lance daí...
[02] - Então como é que eu faço se eu quiser ter o teu?
[Buzu] - Tu espera eu arrancar tua pica com uma faca, desgraçado...
[Marcinho] - Parou com a viadagem! Tu tem razão, Buzu, cada um tem a própria língua e entende as coisas de um jeito, dá um sentido...
[03] - Do jeito que a discórdia reina aqui nesse muquiço, acho que cada um entende um sentido e dá o próprio jeito...
[02] - Cês tão falando merda, tem nada disso não... é questão de classificação das palavra, coisa de livro, grama... grama... aquela porra lá de português!
[Marcinho] - Que mané classe, num tem essa de classe porra nenhuma, aqui é todo mundo desclassificado.

*Outro flagrante silêncio dos detentos ensurdece a cela*

[Buzu] - Tem razão, classe é coisa de bacana, nois aqui em cana num tem desses lance...

*Dessa vez o silêncio se estende por um ou dois minutos, em um tipo de pausa que mistura constrangimento, arrependimento e dissabor*

- Aí, Marcin, pega o maço - Disse o 02, acrescentando em seguida: quero um cigarro também para arejar a cabeça e tirar esse mau-hálito da boca...

Sentar e Sentir


a verdade é que o verdadeiro poeta
é um velho zureta viciado em letra
que busca para si descrever a beleza
que encontra na musa dançando à mesa

queria ser a beleza
se mover com graça
mas fica sem graça
e acaba careta
num canto de orelha
espiando da caneta
a leoa dançar

ele entreolha e anota
tudo que lhe importa
a perder da memória
que a palavra eterniza

bem, talvez seja eu
que escuto o samba
gravo a letra
mas não largo o banco
ou o copo de cerveja.

A Corrida


à frente do tempo
corro para não ser capturado
mas canso, paro, sou atingido;
detido por um disparo
do qual não deveria ter fugido

veio como um estalo
gutural como mugido

nas teias do talento esquecido
tido em lento ritmo:
renascido o rebento
que enfim transcendeu o tempo
sendo por ele transcendido.