em preto e branco;
destacado um ponto
nenhum espanto
o ângulo parece favorecer
quem fez por desmerecer:
é de quem, afinal, a câmera?
de onde veio esse lugar
que aqui me tem?
vesti um terno
para estudar insuspeito
consultei fatos
revelei fotos
estudei feitos
e contei votos
subitamente vi a paisagem
descolorir artificialmente
era colorida?
nunca fora
era branca
vi cortarem árvores para vender madeira
e um só lápis para desenhar
o seringueiro por trás do látex
vi folhas brancas na nota de cem
azul para disfarçar
essa neutralidade colorida
disfarça a ausência de cor
descobri a minha:
cor do passado
cor de barro
céu tão negro
deus tão longe;
cheiro de mato
de café torrado;
aroma de serragem
e ar de cerrado
uma regressão à plantação
vi nas raízes por debaixo da terra
a mistura tal que se fez à força;
o que sobrara ao dito mulato?
o mito claro do tal misturado
fruto do abuso justificado
na promoção da miscigenação;
agora toda cor
tem um lugar no nosso lugar:
um buraco no meio do nada
com cor de cacau
e cheiro de medo;
e pálido como cal
descobri o segredo
do chamado Azevedo:
sou preto por dentro
guerreiro, sou negro
pintei tudo de preto!
senti que no peito havia um grito
e que no seu mito não havia jeito
e não mais mudo
tornei-me sujeito
fiz rios das minas
e dos santos, exus
eu sou café sem leite
água de enxurrada
preto forte feito prata
sou política dessa memória
paisagem da história
que o pingado adoça
e faz lembrar a escura terra
quem subia a ladeira
era da cor desse ouro
vistosa como valiosa,
tão escura quanto eu
fui ouvir meu griot
e fui também lenda a ser cantada
avante a guarda
da rua sedenta por nosso sangue
peguei a enxada
cravei no chão
tirei a caveira
e levei na mão
vou pôr em exposição
dedos marcados de tinta escurecida
levando à mão a história esquecida
quando me viram
não precisei dizer nada:
o povo, é claro
branco de raiva
vou trazer todo lugar
a esse lugar
esse lugar que sou eu
onde os meus foram
aqueles que se foram
sem, no entanto,
causar espanto
fiz o espírito santo girar:
vi a terra sangrar
e depois escorrer
por um belo horizonte
nesse lugar cabe um estado
dentro do peito, uma nação:
você sabe de onde eu venho?
Você gosta desse lugar?
e dos santos, exus
eu sou café sem leite
água de enxurrada
preto forte feito prata
sou política dessa memória
paisagem da história
que o pingado adoça
e faz lembrar a escura terra
quem subia a ladeira
era da cor desse ouro
vistosa como valiosa,
tão escura quanto eu
fui ouvir meu griot
e fui também lenda a ser cantada
avante a guarda
da rua sedenta por nosso sangue
peguei a enxada
cravei no chão
tirei a caveira
e levei na mão
vou pôr em exposição
dedos marcados de tinta escurecida
levando à mão a história esquecida
quando me viram
não precisei dizer nada:
o povo, é claro
branco de raiva
vou trazer todo lugar
a esse lugar
esse lugar que sou eu
onde os meus foram
aqueles que se foram
sem, no entanto,
causar espanto
fiz o espírito santo girar:
vi a terra sangrar
e depois escorrer
por um belo horizonte
nesse lugar cabe um estado
dentro do peito, uma nação:
você sabe de onde eu venho?
Você gosta desse lugar?
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