segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Ouro Preto


eu sou um lugar
em preto e branco;
destacado um ponto
nenhum espanto

o ângulo parece favorecer
quem fez por desmerecer:
é de quem, afinal, a câmera?

de onde veio esse lugar
que aqui me tem?
vesti um terno
para estudar insuspeito

consultei fatos
revelei fotos
estudei feitos
e contei votos

subitamente vi a paisagem
descolorir artificialmente

era colorida?
nunca fora
era branca

vi cortarem árvores para vender madeira
e um só lápis para desenhar
o seringueiro por trás do látex

vi folhas brancas na nota de cem
azul para disfarçar

essa neutralidade colorida
disfarça a ausência de cor

descobri a minha:
cor do passado
cor de barro
céu tão negro
deus tão longe; 

cheiro de mato
de café torrado;
aroma de serragem
e ar de cerrado

uma regressão à plantação
vi nas raízes por debaixo da terra
a mistura tal que se fez à força;

o que sobrara ao dito mulato?
o mito claro do tal misturado
fruto do abuso justificado
na promoção da miscigenação;

agora toda cor
tem um lugar no nosso lugar:
um buraco no meio do nada
com cor de cacau
e cheiro de medo;

e pálido como cal
descobri o segredo
do chamado Azevedo:
sou preto por dentro
guerreiro, sou negro

pintei tudo de preto!
senti que no peito havia um grito
e que no seu mito não havia jeito

e não mais mudo
tornei-me sujeito
fiz rios das minas
e dos santos, exus

eu sou café sem leite
água de enxurrada
preto forte feito prata

sou política dessa memória
paisagem da história
que o pingado adoça
e faz lembrar a escura terra

quem subia a ladeira
era da cor desse ouro
vistosa como valiosa,
tão escura quanto eu

fui ouvir meu griot
e fui também lenda a ser cantada
avante a guarda
da rua sedenta por nosso sangue

peguei a enxada
cravei no chão
tirei a caveira
e levei na mão

vou pôr em exposição
dedos marcados de tinta escurecida
levando à mão a história esquecida

quando me viram
não precisei dizer nada:
o povo, é claro
branco de raiva

vou trazer todo lugar
a esse lugar
esse lugar que sou eu
onde os meus foram
aqueles que se foram
sem, no entanto,
causar espanto

fiz o espírito santo girar:
vi a terra sangrar
e depois escorrer
por um belo horizonte

nesse lugar cabe um estado
dentro do peito, uma nação:
você sabe de onde eu venho?
Você gosta desse lugar?

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