terça-feira, 20 de outubro de 2020

Leite Materno


Rômulo nasceu 
numa manjedoura
sua procriadora
logo enlouqueceu

não fui a Roma
mas tenho boca
peguei o barco
e levei o remo

rio acima fluí
pelas estepes;
vi a mãe louca
nutrir sua cria

que mulher és!
dando à loba
um filho teu
já que o leite
não lhe basta

a forma é fria
e a cara é feia
não nos importa
se é filho de Freya

o solo é frágil
o tempo é outro
o filho pródigo
nasceu de novo;

duma casca de ovo
nasceu sem nem ver
e não gigante
cíclope Jotun
como haveria de ser

mas o leite materno
da loba selvagem
o salvou do inverno
e da eterna friagem

oh, leite divino
insuficiente menino
de tal nutriente
que fê-lo proteico!

já estava feito
pegou o remo
e prometeu a si
à boca do Reno
ferir Fenrir
e então redimir
o irmão Abel
cujo leite nutriu
os olhos de mel

navegou pelo mar
do riacho leitoso
e encontrou o lobo
branco das estepes

deu a ele seu Uivo
avistou o pai louco
parou um pouco
e disse ao caronte:

esta alta barca
toda dourada de sol
vai aonde?

de fronte para o cão
a chuva caía forte
frio como o inferno
disse aquele homem:
para ser honesto...
de volta ao ventre.