terça-feira, 25 de agosto de 2020

O Morto-Vivo


Zumbi morto!
Zumbi vivo!
Zumbi morto-vivo!

o congo amadurecido
o angolano alagoano
o cacique de Moçambique
Zumbi é rei, Zumbi é líder!

exu guerreiro
de preto e vermelho
a Zumbi entrego
meu ouro e chá 

pai dos negros
dos presos
dos sofredores;
quilombo sem Zumbi
padece de desamores

negro sem raízes
não tem Boa Esperança
nem herança
nem fogo
nem luta

sem passado, nem vontade
sem qualquer dignidade:
Zumbi no campo
Zumbi na cidade!

Zumbi é gente,
sonho
entidade

no altar condecorado
holandês não tem vez;
pernambucano bravo
baiano conjurado;

Zumbi é advogado
é abolicionista...
é descolonizador
dos senhores da Boa Vista

consciência quinta
quintessência negra
cuja regra não se desfaz
nas cinzas duma quarta
e vai além de novembro
e todas tolas farsas

Zumbi do candomblé
homem de raça
guerreiro de fé;
se bate o tambor
eu canto o Axé!

eu toco o atabaque
preparado pro ataque:
Zumbi é meu senhor
o raio de meu Xangô
e o cocar do meu avô;

Zumbi pisa no mato
cata a cobra branca
Boitatá maldita, caraíba
e parte-lhe a cabeça:
como a mula, fica sem

veloz como o caçador das matas
com setas e azagaias
Curupira das andanças e danças
que anda para frente
caminhando sob lanças 

exibindo suas tranças
vai Dandara à lutar;

ele corta o fogo com sua espada
é ele o nagô que nada
sobre as negras largas costas
onde navios trouxeram seus filhos
cujos filhos contaram histórias

morto feito povo
povo todo vivo
feito de um sonho
o mártir dividido

Zumbi ressuscita de um livro
recita-nos um verso
incita-nos ao quilombo
e nos salva todo o país
de Cabral e Colombo.

O Medo de Chorar Para Sempre


Sempre quis voar; não consegui.
Despejei sob a memória 
ruidosa e melancólica nostalgia

chorei tanto que perdi a substância;
entre as lamúrias infindas, tornei-me poça
virei água
perdi a forma
morri na praia

duma só vez a duna me engoliu a sina
os sinos dobravam sobre a igreja praieira
e a areia era coberta pela neblina citadina
onde a orla e a onda se tornaram coisa só

todos os medos sórdidos e insólitos
eram sólidos como a sombra solitária:
vagavam pelo vácuo do espaço
onde nada é claro e vida não há

a angústia era tanta que acelerava a célula
cada átomo parecia se partir
e no meio da escuridão assombrosa
vi a ambrosia na árvore saudosa

fui tocado por caloroso abraço
e fiquei leve tão leve que fui levado;
ao ser, como vento, ido ao espaço
o tempo questionou a sombra
que fez da carne um dia substância

eis tu, espião, ausência da essência
diga-me que é este absurdo breu
que molesta o vigia teu
ao lado do espelho, como vazio reflexo?;
o que é isso que sobe e se esvai
como livre pássaro, sem asas ou sonhos?

eis que a sombra, iluminada, disse:
isso é vapor, menos denso que o ar
donde tudo se faz para permanecer
e no todo se concentra para voltar
ao contrário de ti, que corre sem pés
como presente atrás do futuro
que se julgas infinito e absoluto
mas sequer existe, porque louco és

o sereno se esvai do pequeno corpo azul
esperança na gota de orvalho, nova manhã:
é vida!

voa leve, toma gosto, é tempo de pipa
sem hora para voltar à casa
ou lição qualquer por fazer;

a chama acesa lhe esquenta
alimenta o fogo, atenta a lenha;
não é medo, não é a morte:
é o prazer, é o prazer!

bem alto, vapor barato, subi
menos denso que o aparato
mais sólido que a sombra
mais velho do que o tempo
mais jovem do que a vida

preciptei-me ao antejulgar
a angústia pontiaguda
na "ponte" da impotente impaciência;
sou gás, sou fogo, sou leve consciência!

e foi nesse dia
que a essência deu à sombra substância 
que no aguardo agonizante
se pôde libertar...
e ver... e ser... e observar;

ao olhar para si, deixou de se olhar:
espelho marítimo
donde o som e o ritmo
compuseram o reflexo
revelando o luar
e a luz que lá 
sempre se oculta

debochada é a vida a se esconder na sombra;
ironia, não ria, que um dia é você lá
onde cada um é pétala da mesma flor
e todo mundo é o universo de um só

atemporal, maior que o ar
fui do chão ao céu;
e nesse calmo horizonte haverá tormenta
e um temporal me choverá no mar;
até lá, sou gaivota, sou nuvem passageira
descarregada, devagar, costumeira...

costurei meus medos na teia
queimei tudo na raiz da rosa
fiz da estrela cadente prosa
e no verso que me goza
afinal, voei...

Velha Gangorra Colorida


havia naquele parque florido campo
destaque para a pipoca:
eram orquídeas no canto da praça
que saltavam da barraca para fora;

o azul primaveril da gangorra
o balanço novo em folha
o ferro prateado ainda soldado
o orgulho que reluzia dia afora

todos iam ao campo àquele tempo
reunidos em rodas para jogar bola;
e o tal bom tempo também passou
e agora?

agora
o campo está abandonado
uma praça que não resistiu
ao custo de erodir

desapontado
sigo entre os botões não desabrochados;
os brinquedos desabrigados
se aglutinam à minha volta:
ilusões de restauração me forçam à revolta;
não consigo, sem mágoas, revoltar-me:
olho infértil o terreno desamparado

latão de lixo amarelo enferrujado
velha lata em formato de palhaço:
são ruínas de um reino desarrumado
de uma infância cujo menino foi rei

o antes vívido azul está agora desbotado;
o banco verde claro manchado de cloro
como se a chuva a cloro o tivesse lavado

o botão bonito desabotoado
a botina na latrina de um lixo;
o cadarço de tênis desamarrado
arremessado alto sobre o fio

o velho escorregador de ferro
foi de vermelho à alaranjado
laranja podre da qual sobrou somente a casca
e sementes que não vingaram pelo solo à jaza

a gangorra remoída, toda ela amolecida
tomada por poeira e comedores de madeira

unidas e aguerridas
as flores margaridas
à toda visão tomada
por tonéis em tons pastéis

tudo mais fora esquecido
enrolado no cartaz puído
desta terra ressequida
onde há tantas jazidas
todas elas em anéis

cor de disenteria na areia que foi castelo
desenterrado sem pudor à plena vista;
as pegadas na terra molhada marcada pelo chinelo
o orvalho eleva o olfato ao odor de uma velha brisa

balanços pendurados por velhas correntes de cobre
cobre enferrujado, marrom profundo;
pedras hostis, hastes quebradas e argolas rompidas
barras amassadas, peças descoloridas

mesas de jogos no concreto já apagadas
a pegada do tempo impressa na calçada
bancos com vigas há muito expostas
tampas de breja na mesa de apostas

contornada ela por suas escadas
à Igreja antes respeitada
nada sobrara senão o portão;
fora um dia alegria de dar graças
está hoje tomada toda pelo lixão

escoro-me sobre as baixas cercas
observo a cruz sob a frágil luz
que emana a manta da Santa da Conceição,
agachado sobre o muro de um mundo
cruzado ante a crise da divisão

calçadas rachadas, tomadas por manchas
poeira e sujeira
resíduos demais;
ruídos do impacto da ação desumana
duma espécie errante de erros fatais

e sobre os círculos dos bancos antes brancos
pixos;
vícios desse doentio cenário pós-apocalíptico

sob o avermelhado céu de uma tarde de outono
uma criança salta entre os bancos sujos
cobertos eles todos por limos e musgos

e desfrutando de um momento de emérito gozo
seguiu o infante tomado pelo instante
daquele tosco pedaço do próprio paraíso
proibido e perdido, tal como nascido, em Milton

a infância na esquina se põe
com o sol no distante horizonte

à envelhecida nostalgia nenhuma fonte
apenas a lembrança de ontem
que hoje decompõe a imagem no front
decupada para fora desta sanha culpada
que como se gente fosse fôra lá deixada
às tortas
para ser decapitada
entre as árvores mortas
rodeadas por caixas
papelão velho inútil
cobertas por cascas
inférteis ao solo

nesse quadro sem moldura
antigo e empoeirado
preguei torto na parede o velho retrato:
um moleque de rua
cujo castelo encantado fôra, senão pão
a promessa de um sonho
desses que a padaria jogou fora
desses com o qual sonhara João

João também fora jogado no lixo
e nele encontrou seu pão;
- Obrigado, meu pai, por me dar de comer,
amanhã vou ao parque se o tempo ceder
disse ele a si mesmo e se pôs a sorrir

mas choveu muito e já era inverno;
gripado, João foi assim mesmo
e essa foi a última vez que o vi
naquela praça morta
cuja graça fôra um dia
colorida e saudosa infância minha.

CIVILIDADES

            

            Um indiano resfriado sentou-se à mesa de um bar no coração de Londres e serviu uma xícara com chá branco, enquanto um britânico, curioso, observava. Reparou que o estrangeiro punha a água quente ao tempo em que sentava na cadeira e também na curva que faziam seus dedos em torno da xícara.

            Então, de curioso, o indiano passou logo a exótico: infusionou ali mesmo água de rosas e, surpreso por tal feito inusitado, o inglês, sentado em frente ao balcão, tomou um gole do seu chá preto. – Aquele tal é ousado, o paladar deve ter estragado depois de um ou dois tragos, ou quem sabe foi toda aquela pimenta que o povo dele aguenta comer.

         Não satisfeito com seu chá, o homem indiano, em seu elegante traje preto, moeu sobre o mesmo grãos de pimenta do reino. – Sabia que era uma questão de pimenta, mas ele está no Reino, afinal. É livre para unir ao seu chá o que bem quiser experimentar – matutou o outro.

            Então, de estrangeiro foi à estranho, quando de pronto adicionou canela em pau àquele chá tradicional. – Mas o que é isso? – meditou perplexo o inglês, enquanto esfriava seu chá. Pôs então anis e o outro não mais quis olhar; não pôde acreditar quando o estranho pôs noz-moscada no chá.

            A tolerância, tal como a pressão do pálido londrino, caiu significativamente. Então o indiano interviu mais uma vez apelando à civilidade do lorde inglês ao misturar no chá um punhado de açafrão. – Aí não! – pensou o homem em suas largas calças, enquanto firme apertava seu chapéu contra a mesa, como manda a boa etiqueta.

            No entanto, seu nojo logo se tornou buliçosa ira quando o indiano fora de exótico à selvagem, servindo-se de inúmeras colheres de açúcar refinado. Grosso, o anglo angustiado pôs seu chapéu sobre a cabeça e perdeu as estribeiras: – Mas o que é isso, seu porco incivilizado? Onde estão os seus modos? Essa é uma tradicional casa de chá londrina, não um lugar onde se vêm para tomar misturas e lavagens porcas como esta tua sobre a mesa!

            O silêncio ocupou a chaleira. A mosca, antes inquieta, cruzou o salão e pousou sobre a noz. Calmamente, o homem então adicionou cravo-da-índia ao chá sob o azul daquele céu de uma Londres primaveril e disse: – Você acha que este é seu reino? Acha que tem o direito de regular o meu chá? Qual será a próxima coisa que mo a de regular? As ceroulas que para dormir visto ou meu visto para viajar? E as meias minhas? Está boa e colorida ou comprida em demasia? Preferíeis vossa senhoria que eu a estique até a canela? Olhe bem para esse céu anil... eu vim por entre as nuvens voando quando por engano fui levado ao Brasil! Caro senhor, você sabe o quanto esta viagem me custou? Vi papoulas florescerem como erva daninha no meu jardim e então eu vim faminto para cá... agora querem mandar na maneira em como devo tomar o meu chá? Quem é você, por acaso, dono das ervas? O chá é meu e eu adoçarei até que me faça gosto... de que vale a liberdade de um homem se ele sequer pode temperar como bem entender seu chá em uma nobre casa? Melhor faria tendo ficado na Índia, onde respeitam minha casa e casta, ao invés de com gente incivilizada e selvagem como vocês britânicos, que acham que podem mandar e desmandar em tudo e todos, instituir o que é e o que não é tradicional, bom e belo, ruim e feio.

            O britânico pisou no freio: tinha agora olhar magrelo e arrependido. Disse então em baixo tom: – Desculpe-me, senhor, não vale a pena fazer guerra por um chá, tampouco por especiarias.  Então, mais calmo, o indiano replicou: – Mas já era tempo de vocês perceberem isso! Não adianta dizer uma liberdade e vender outra!

            E assim o tradicional chá preto daquele lorde esfriou. Achara-o amargo demais após esfriar e resolveu então descartá-lo. O índio pegou seu daime e tomou num vigoroso gole só, ao passo que a gripe passou. Depois de pagar pelo chá não tomado, fora o britânico com suas libras para casa.

            O tempo fechou e a chuva caiu. Sua esposa lhe preparou um chá para o acolher naquela finada tarde de céu acinzentado; acidentado e confuso, sorriu com os típicos dentes amarelados a ironia da corisa que lhe escorria pelo nariz. Resfriado em pleno sábado, não conseguiu do chá verde extrair nenhum sabor.