I
José
Cabral de Melo da Silva
viveu
nas terras de São Pedro
no
agreste semiárido;
agredido
pela seca
fugiu
para São Paulo
é
difícil elencar José como cidadão:
era
filho de Francisco e neto de João;
Francisco
foi ator de circo
e
João viveu de comércio
sua
mãe morreu no hospício
e
seu pai viveu de jogo
seu
avô se perdeu no vício
e
a avó morreu de desgosto;
nasceu
em dia de comício
o
filho de Francisco
que
era neto de João;
batizado
num domingo
fez
primeira comunhão
II
ao
longe no horizonte
o
céu tão distante
prometia
honesta chance
de
um dia se ajeitar
em
seu novo roçado conheceu um mineiro
o
nome era Jorge, o sobrenome Ribeiro;
um
garimpeiro de peixe que veio do norte
tentar
contra a sorte em uma terra sem rio
Jorge
bem queria a Silva
que
tinha medo do mar
pensou
em dar-lhe uma boia
mas
sem boia iria afundar
III
Maria
era a esposa de Jorge
que
um dia saiu para pescar;
Maria
foi a José e de pronto lhe disse:
vamo
logo home, tome uma decisão!
pegue
o peixe antes que fique azedo
deixe
já de ser mula e vá ser alazão!
mas
José era azarão e disse logo duma vez:
-
o senhor Joaquim também monta a cavalo...
pode
até ser, José, mas cuida dele melhor, não cuida?
-
pelo que soube, de carinho à ferradura!
e
a ti, quanto ele paga? Meio tostão e uma dentadura?
- pois então boa sorte que eu vou é membora!
então
vá sem nada, seu frouxo, bicho, burro, trouxa
e
deixa aqui tua marmita e a colcha!
homem
que não quer nadar morre na beira da praia
sem
nada na calça e sem nome nas costas
-
não quero poder, Maria, quero viver a vida!
quero
ser gente, correr livre
comprar
um sonho, andar por aí...
e
isto, tu não quer? – disse Maria
ao
pôr em seus peitos as mãos de José
-
o que é isto, Maria?
isto
José, é poder!
-
isso que é poder, assim, sem pudor?
nenhum,
José. E agora? Tu não quer?
-
ah, Maria, eu quero...
então
ponha cá a tua máscara
que
o baile logo vai começar
não
se esqueça do que lhe dei
voltaremos
a nos ver, Maria?
se
Deus quiser, José, serei tua rainha
-
e também minha coroa!
besta
da peste, cê não entende é nada!
basta!
vá antes que Lucíola volte
aquela
desalmada quer fazer tua cabeça
desde
que o marido Peri morreu
tem
razão, Maria, vou e volto num pulo
serei
mais ligeiro que pássaro no poleiro
coelho
no cio ou gato no telhado
e
miarei, te juro, uma serenata de amor
vá
com pé de vento e volte em pé de valsa
te
espero na balsa com o bálsamo na bolsa
não
te demores porque o poder te aguarda...
ora
essa, eu me vou é agora!
e
voou José pela noite afora.