Seu Armando Chico Paraná
senhor das terras lá do sul
chamou pra cá o pobre
e pediu pra vir as freira
os pobre vieram arar
trabalhar duro na terra;
as freira vieram orar
e benzer os cabrito
bonito do seu Chico
borandá que Paraná chegou
Paraná é muito seco e o clima é muito frio
olha aí, meu senhor, onde é que vai chegar
quando os cachorro vier latir
e os carregadô de cana passar?
vinham todos de caravana
para os vinhedos de Paraná;
fugidos da cana
vieram para cá
onde viram nas uvas
uma terra pra pisar
prontos para colher milho
e encher a colher de fubá;
sabiam como moer cana
e reparti-la em seu sabá
ao ouvir João, disse Paraná:
boa gente não deixa o campo
isso é coisa de cigano
gente sem sobrenome
que não anda certo nem vale nada
e vem para cá cheia de vontades...
mas toda boa gente vem de longe
de um engenho lá de dentro
bem do fundo de cada roça
donde Judas perdeu as bota
tu questionas demais, João
e isso desagrada a Cristo
- mas Cristo em pessoa
não questionou a fé de Pedro?
Cruz é cruz e martírio é martírio
você é João e Cristo é Cristo
vê se atina para isso:
não atira pedra quem tem teto de vidro
agora rola a pedra e corta a cana
toma logo teu juízo
porque chefe é chefe e amigo é amigo
- João era amigo de Jesus!
e meu nome por acaso é Jesus?
- não é não senhor, nem se parece
e tu mais parece com um bicho
- que bom então, pois Francisco é amigo dos bicho
e até que tua esposa se parece com santa Clara
mas que abuso é esse, estrupício!?
- mas seu Pará...
Pará não, Paraná
olhe cá o castigo na mão
num me atente que sabe do preço
suplício é pouco pra todo esse abuso
ou você acha que a vida é mole feito Maria?
não é mole não, seu Paraná, mas é doce
doce feito doce de batata doce
cara de carinho e rica de desgosto
dura feito pé descalço em chão rachado
então se calce e tome rumo
que todo chão é solo;
tem solo pra gado
e tem chão pra carro
e você que não tem solo
precisa é de trabalho!
sim senhor, mas é claro
só que se tá frio
é porque falta agasalho
e se queimo o pé
é porque falta calçado...
ora moleque, não me amole com essa de pé
que eu andei foi asfalto
de camelo e descalço
produz logo o melaço
que tempo é caramelo
então João disse bem baixo
- duro mesmo é cascudo em bucho vazio
trabalhar de bolso cheio rende mais
bucho de bicho chucro não sabe de lucro
barriga se enche é com serviço
vai fazer teu caramelo
que eu ganho pra te pagar
então João se foi cabisbaixo
mas Paraná não era justo
empedrou foi tudo e sobrou foi caldo
saiu da cozinha arrasado
foi para o quarto do criado
e calçou seu velho chinelo
ao que veio à janela do sul
um belo quero-quero
quando do norte viria
um pica-pau amarelo
pássaro bonito tipo arara
solitário feito João
silencioso feito grilo
saudoso como Maranhão
ah, que saudade de casa!
que tempo mais frio
que terra mais feia!
assim vive João:
já não olha para o sol
já não mais visita o filho
já não há campo elísio
e sua canção de abrigo
não lhe colore o exílio
e o tal pássaro bonito
que apitou liberdade
fez da flor companheira
feito flor que abelha beija
pra fazer seu doce mel
João sai para encarar o mundo
imigrantes e famílias a passeio
vendo João com cara feia de fome
e recolhido em seu cantinho;
eles passarão, ele, passarinho.
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