sábado, 25 de julho de 2020

Serventia de José


I

José Cabral de Melo da Silva
viveu nas terras de São Pedro           
no agreste semiárido;
agredido pela seca
fugiu para São Paulo

é difícil elencar José como cidadão:
era filho de Francisco e neto de João;

Francisco foi ator de circo 
e João viveu de comércio
sua mãe morreu no hospício
e seu pai viveu de jogo
seu avô se perdeu no vício
e a avó morreu de desgosto;

nasceu em dia de comício
o filho de Francisco
que era neto de João;
batizado num domingo
fez primeira comunhão

II

ao longe no horizonte
o céu tão distante
prometia honesta chance
de um dia se ajeitar

em seu novo roçado conheceu um mineiro
o nome era Jorge, o sobrenome Ribeiro;
um garimpeiro de peixe que veio do norte
tentar contra a sorte em uma terra sem rio

Jorge bem queria a Silva
que tinha medo do mar
pensou em dar-lhe uma boia
mas sem boia iria afundar

III

Maria era a esposa de Jorge
que um dia saiu para pescar;
Maria foi a José e de pronto lhe disse:
vamo logo home, tome uma decisão!
pegue o peixe antes que fique azedo
deixe já  de ser mula e vá ser alazão!

mas José era azarão e disse logo duma vez:
- o senhor Joaquim também monta a cavalo...
pode até ser, José, mas cuida dele melhor, não cuida?
- pelo que soube, de carinho à ferradura!
e a ti, quanto ele paga? Meio tostão e uma dentadura?

-  pois então boa sorte que eu vou é membora!
então vá sem nada, seu frouxo, bicho, burro, trouxa
e deixa aqui tua marmita e a colcha!
homem que não quer nadar morre na beira da praia
sem nada na calça e sem nome nas costas

- não quero poder, Maria, quero viver a vida!
quero ser gente, correr livre
comprar um sonho, andar por aí...

e isto, tu não quer? – disse Maria
ao pôr em seus peitos as mãos de José
- o que é isto, Maria?
isto José, é poder!
- isso que é poder, assim, sem pudor?
nenhum, José. E agora? Tu não quer?

- ah, Maria, eu quero...
então ponha cá a tua máscara
que o baile logo vai começar
não se esqueça do que lhe dei

voltaremos a nos ver, Maria?
se Deus quiser, José, serei tua rainha
- e também minha coroa!

besta da peste, cê não entende é nada!
basta! vá antes que Lucíola volte
aquela desalmada quer fazer tua cabeça
desde que o marido Peri morreu

tem razão, Maria, vou e volto num pulo
serei mais ligeiro que pássaro no poleiro
coelho no cio ou gato no telhado
e miarei, te juro, uma serenata de amor

vá com pé de vento e volte em pé de valsa
te espero na balsa com o bálsamo na bolsa
não te demores porque o poder te aguarda...

ora essa, eu me vou é agora!
e voou José pela noite afora.

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