domingo, 17 de janeiro de 2021

Jed, o Gari (e a Misericórdia Invisível)


    Na lanchonete em que me encontrava, ouvi de um policial ao sair, que se retirava do balcão: você tem que aprender a se defender, filho, nem todo mundo é policial e nem todo policial vai te defender. 

    Lá fora, no alto de uma ladeira, trabalhavam 3 ou 4 homens, em frente a uma rampa. Três construtores e entre eles, um gari. Jed, o Gari.

    A obra era para substituir os geradores do parque urbano, produzir energia mais limpa. Curioso para ver a rampa, subi. Subi e no caminho encontrei um sujeito que questionou minha intromissão; volte para casa, ele disse: você não é daqui. E não era, mas continuei a subir. De lá de cima, vi Jed cair, escorregando pelo morro como a roda deitada de uma bicicleta acidentada.

    Segure ele! Disse um, tentei. Jed passou por mim e foi parar no lugar de onde vim. Corri, preocupado, os berros atrás de mim. Ao arrastá-lo, sob o corpo de Jed, uma poça carmesim. Meu Deus, chamem ajuda, eu não sei costurar!

    O primeiro foi o mestre de obras, a debochar: ele que se levante, é sempre assim. Terceiro acidente no mesmo mês, ele bebe e cai nos ladrilhos, meio fio, paralelepípedos e parapeitos. Eu insisti e a vizinha, dona Socorro, ordenou: deixe esse ladrão no chão, ele precisa aprender a parar de dar trabalho! Se caiu, que se levante, como faz toda gente que mora aqui embaixo.

    Liguem para uma ambulância, pro bombeiro, pra rádio! Alguém tenha pena e me ajude a estancar. Jed sorria, pedia colo, me dava a mão, "deixa pra lá". Liguei 193, depois 194, sabia que sozinho eu não o poderia deixar. Chegou 190, ordenando me afastar. "Não se meta com a sarjeta ou quem fica é você". Pôs a mão na "sujeira" e voltou a reclamar - do trabalho que lhe dei, de o pôr pra trabalhar.

    Ninguém parecia se importar, o resgate não viria, eu sentei e esperei, não devia esperar. Levaram o homem e eu sentei sobre o fio da calçada e logo estava sobre um meio horizonte, que fino chovia fina garoa.

    Fui chamado à delegacia e lá me apresentei. "Um mendigo e um homem que quer ser rei". Rei? Pedi à lei que seu ombro movesse. Escorresse pela ladeira alguma segurança ou quem sabe, misericórdia para escorar seu corpo ancorado ao chão. Nenhum ombro para Jed, nenhum caixão! Vi seu corpo estatelado como ovo frito na calçada belamente ladrilhada.

    Então o delegado me disse: escute aqui, soube que você gosta de motos - e ele, aparentemente, de mortos. "Pois bem", continuou, "todo motor precisa de um combustível para desenvolver suas operações. Para isso, precisamos produzir energia, ininterruptamente, todos os dias. Quando você enfiou seus dedos na companhia, você atrasou a usina e isso gerou sujeira, à luz do dia. Resíduo, resina, lixo. Lixo junto, compacto, que você espalhou e A GENTE TEM QUE LIMPAR! Entendeu agora? Por causa daquele bicho que está lá! - e apontou para a cela vazia de Jed. "O que você quer, meu filho? Uma condecoração? Você não salvou o dia, pois perdeu o corpo. Como resultado, não evitou o prejuízo. Armou um circo e não desmontou a lona. Quer uma arma ou um distintivo? Quer terminar um estudo dirigido? Dar uma de São Francisco?".

    Eu olhei para ele e disse: estivéssemos em uma lanchonete, eu bateria no senhor. E se você disser essas coisas outra vez, bato aqui mesmo. Não quero ser policial, quero ser juiz. Assim você não seria meu superior e eu poderia mandar prensar seu nariz numa cela especial.

   Então o delegado riu como policial e debalde declarou: finalmente você aprendeu.

   Não aprendi. A energia da cidade continuou suja. A ladeira continuou alta.

Pizzarias


Somos italianos? Não, mas comemos pizza. Somos pizza? Não, mas comemos italiano. Comida, gente, etnia, prato. Comemos? Comemos. Alguns. Outros deviam - ou devoram, um ou dez, em rodízio. A pizza repartida dá para toda família. Italianos não gostam de rodízio. Paulistas não gostam de pizza carioca. Paulistas gostam de pizza paulista porque paulistas gostam de italianos. Pizza paulista tipo italiana. Italianos não são paulistas, italianos gostam de pizza italiana. Mas a pizza de São Paulo não é italiana como a do Rio de Janeiro: aqui, lavamos dinheiro.

 

E isso é bem italiano.

 

Edifício Redentor


I A Rotina

malandro é o sujeito destro
que escreve torto pelo certo

 
malandrar é escorregar
entre as árvores duma selva
onde a maioria é prego
um bocado cego;
e tosco é o martelo
que prega nossa fé

é sobreviver com classe
sem tomar consciência;
fazer de cada dia arte
e dessa arte, uma ciência

juízo, juizado, juazeiro
e o povo que caminha
de janeiro a janeiro
nas ruas e nas praças
com o chicote estalando
nas vias ensolaradas
de chão quente e camelô

um calor do diabo na calçada descalça
por onde transita ordenado
cordial o povo incivilizado 

inimigos por todos os lados
que caminham rente ao solo
e não enxergam o horizonte
renascer à frente
do caótico fronte


II A Revolta

de repente, toda essa gente, elefante
olha para cima da fonte
entre os reluzentes prédios azuis
da cor daqueles santos olhos
olhares das dores do santo Jesus

mais alto que a calçada rachada
e mais duro do que pão dormido
um edifício não remido
tomou céu de Salvador

o aprisionou numa selva de pedra
desenhada como forno
pra abafar do mar a brisa

e sobe e desce o morro
o pelourinho de Jó...
essa engenharia social
que deixa o povo assim
entre a pó e a Catedral

e olham para o chão
e olham para cima
e pensam no que são
e são o que disseram

pararam para pensar
pensaram em reagir!
- a gente se entende
onde forem dois ou mais

alguns pararam pra pensar
outros pensaram em parar
mas ninguém parou o trem
desta casta operária

tornaram-se novamente um povo
quando pensaram ser um sonho;
brasileiros, que afinal, o que são
senão encantos e desencontros?

IIIO Esquecimento

pois eles sabem
são todos os dias
mas o que foram
quando não eram?

brasilidade é raiz
história na boca do povo
memória que não recorda
de registro, de acordo ou edifício
mas que lembra do toque
da chuva e do feriado
e esquece daquele monte de gente
gente no calor
na calçada camelô
quando tudo fica bem

o povo morre, remorre e revive
pois não vive de passado;
memória é pra quem tem tempo
para recordar sentado

eu tenho sangue do mangue
minha bandeira é de madeira
com cara e cor de verniz
que jogaram na bandeira
para a gente ser feliz!

e a brasilidade
abrasiva, pega fogo
queima a fonte
a barca
a memória, a raiz
e o museu

chama o síndico
é difícil, seu Macedo
inferno é o enredo
danço esse medo
e penso no estrago

sambei, estou feliz
mas logo vai passar
e iremos retornar
e retomar o trabalho
após o término
desse intervalo

e a civilização nos salva novamente do sol
o prédio cinza nos civiliza a alma em andares
dessa tal brasilidade
pelo sacrifício de sangue
nos edifícios que redimem
nossa natureza selvagem.