domingo, 17 de janeiro de 2021

Edifício Redentor


I A Rotina

malandro é o sujeito destro
que escreve torto pelo certo

 
malandrar é escorregar
entre as árvores duma selva
onde a maioria é prego
um bocado cego;
e tosco é o martelo
que prega nossa fé

é sobreviver com classe
sem tomar consciência;
fazer de cada dia arte
e dessa arte, uma ciência

juízo, juizado, juazeiro
e o povo que caminha
de janeiro a janeiro
nas ruas e nas praças
com o chicote estalando
nas vias ensolaradas
de chão quente e camelô

um calor do diabo na calçada descalça
por onde transita ordenado
cordial o povo incivilizado 

inimigos por todos os lados
que caminham rente ao solo
e não enxergam o horizonte
renascer à frente
do caótico fronte


II A Revolta

de repente, toda essa gente, elefante
olha para cima da fonte
entre os reluzentes prédios azuis
da cor daqueles santos olhos
olhares das dores do santo Jesus

mais alto que a calçada rachada
e mais duro do que pão dormido
um edifício não remido
tomou céu de Salvador

o aprisionou numa selva de pedra
desenhada como forno
pra abafar do mar a brisa

e sobe e desce o morro
o pelourinho de Jó...
essa engenharia social
que deixa o povo assim
entre a pó e a Catedral

e olham para o chão
e olham para cima
e pensam no que são
e são o que disseram

pararam para pensar
pensaram em reagir!
- a gente se entende
onde forem dois ou mais

alguns pararam pra pensar
outros pensaram em parar
mas ninguém parou o trem
desta casta operária

tornaram-se novamente um povo
quando pensaram ser um sonho;
brasileiros, que afinal, o que são
senão encantos e desencontros?

IIIO Esquecimento

pois eles sabem
são todos os dias
mas o que foram
quando não eram?

brasilidade é raiz
história na boca do povo
memória que não recorda
de registro, de acordo ou edifício
mas que lembra do toque
da chuva e do feriado
e esquece daquele monte de gente
gente no calor
na calçada camelô
quando tudo fica bem

o povo morre, remorre e revive
pois não vive de passado;
memória é pra quem tem tempo
para recordar sentado

eu tenho sangue do mangue
minha bandeira é de madeira
com cara e cor de verniz
que jogaram na bandeira
para a gente ser feliz!

e a brasilidade
abrasiva, pega fogo
queima a fonte
a barca
a memória, a raiz
e o museu

chama o síndico
é difícil, seu Macedo
inferno é o enredo
danço esse medo
e penso no estrago

sambei, estou feliz
mas logo vai passar
e iremos retornar
e retomar o trabalho
após o término
desse intervalo

e a civilização nos salva novamente do sol
o prédio cinza nos civiliza a alma em andares
dessa tal brasilidade
pelo sacrifício de sangue
nos edifícios que redimem
nossa natureza selvagem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário