A cidade é um cinzeiro
um coliseu
um picadeiro;
um conceito em cada teto
um concerto de concreto
um sujeito de cimento
o prédio é uma nua fratura exposta no
solo:
a ânsia e o tédio repousam sobre meu
colo;
a noite outra vez toma o céu acima
esfumaçado pela poluição citadina
onde a estrela longe que não brilha
me guia à esquina a vista em sépia
o céu cinzento de tanta neblina
a cor de cobre sobre o céu;
a chuva inunda a rua imunda
e a cidade dissolve como papel
sobe o vapor barato
sobre o teto que cobre meu quarto;
meu quarto coberto
sobre a cobertura do quarto andar;
com a chuva sobe este vapor
sob o escalpo esquartejado do meio fio:
corre feio esgoto onde era rio
e a rua desaba como papelão amassado
a ventania chuvosa se propaga pelo eco
da covardia
a coragem me abandona na sacada fria
esquento a janta
acendo o incenso
fumo o cigarro
sirvo o Cinzano
sobre a mesa de zinco
o velho vaso de vidro;
sento-me à antiga cadeira amarela
faço do pote de margarina cinzeiro
- e do cigarro aceso
flor singela
toda ela aberta em pétalas de tabaco
uma quinta em cinzas depois doutra
quarta
um luto que nunca passa
a ressaca que nunca cura;
tento recuperar-me ingerindo aspirinas
aspiro o ar que me roubaram durante o
dia;
transpiro calafrios na noite que inspira
medo;
me perco na escuridão
da esquina com o beco
amanhã respiradouros serão removidos
e o nosso ar ficará sem escape:
esta cidade ficará cada vez mais quente,
vazia de vaga
e lotada de gente
quem sabe amanhã mais tarde
diante da janela que me tenho
a coragem vença a sacada
que me sufoca no pensamento
sobre o dia que hoje não foi.