sexta-feira, 17 de julho de 2020

Espectro Urbano


A cidade é um cinzeiro
um coliseu
um picadeiro;
um conceito em cada teto
um concerto de concreto
um sujeito de cimento

o prédio é uma nua fratura exposta no solo:
a ânsia e o tédio repousam sobre meu colo;

a noite outra vez toma o céu acima
esfumaçado pela poluição citadina
onde a estrela longe que não brilha
me guia à esquina a vista em sépia

o céu cinzento de tanta neblina
a cor de cobre sobre o céu;
a chuva inunda a rua imunda
e a cidade dissolve como papel

sobe o vapor barato
sobre o teto que cobre meu quarto;
meu quarto coberto
sobre a cobertura do quarto andar;

com a chuva sobe este vapor 
sob o escalpo esquartejado do meio fio:
corre feio esgoto onde era rio
e a rua desaba como papelão amassado

a ventania chuvosa se propaga pelo eco
da covardia
a coragem me abandona na sacada fria

esquento a janta
acendo o incenso
fumo o cigarro
sirvo o Cinzano

sobre a mesa de zinco
o velho vaso de vidro;

sento-me à antiga cadeira amarela
faço do pote de margarina cinzeiro
- e do cigarro aceso
flor singela
toda ela aberta em pétalas de tabaco

uma quinta em cinzas depois doutra quarta
um luto que nunca passa
a ressaca que nunca cura;

tento recuperar-me ingerindo aspirinas
aspiro o ar que me roubaram durante o dia;

transpiro calafrios na noite que inspira medo;
me perco na escuridão
da esquina com o beco

amanhã respiradouros serão removidos
e o nosso ar ficará sem escape:
esta cidade ficará cada vez mais quente,
vazia de vaga
e lotada de gente

quem sabe amanhã mais tarde
diante da janela que me tenho
a coragem vença a sacada
que me sufoca no pensamento
sobre o dia que hoje não foi.

Lua Nova


O movimento negro nas sombras desvelou
às margens ocultas das nuvens obscuras
a alvorada prateada sobre a estampa duma alvura

emergiu então daquele céu de meio dia
o eclipse lunar que se apossou do vigia;

e através das cortinas da lua
surgiu do espaço letrado como gravura
um homem estrelado de bravura
iluminado todo por infinita escuridão

a luz lhe revestia a pele que reluzia em um cadeado;
um fantasma que arrastava as correntes de um grilhão

desceu do céu sem nenhuma cerimônia
e disse àquele vigia então:
não vês que a brancura dos meus ossos
está convosco em vossa pele?
mas tolo o homem nada vira;

afastou-se daquela assombração;
enterrou sua fina silhueta
sob a areia duma ampulheta
e partiu sem culpa pela rua vazia

então apareceram à sua vista punhos em riste
mas o homem nada se comoveu com a cena triste

e enfim, do marfim lunar veio o último canto
um sorriso feliz que causou-lhe espanto
e um pranto tão belo que não pôde ignorar:
que felicidade daria ao maldito fantasma
o tão brando direito a sorrir e a chorar?

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Carta de Amor


uma carta de amor
não deveria ser usada
para ocultar intenções
e sim, para as declarar

quero te comer
você quer me dar?

quarta-feira, 15 de julho de 2020

A Entrega


ao tempo dela 
quis me ter;
manipulou a serpente
para gozar da fruta:
rendi-me às rendas
não sou de luta.