domingo, 30 de maio de 2021

Frutas de Cera


a figueira do Figueiredo
não dá frutos no Castelo
perguntem ao Médici
se haverá Mais Médicos
ou se por Milagre
curaremos as doenças

falsas frutas de cera
usadas para entreter
torturadores sádicos
metidos em ofícios
de ocupar orifícios
pelo bem maior dos seus sócios
os Estados Unidos

ordem na casa
cheia de vícios,
do peixe na repartição
à faixa presidencial
que compõem o geral
corpo da pátria

Ai
Ai
Ai
Ai
Ai
como doem as Costas
do Silva na fábrica
que trabalha em silêncio
sem incomodar o patrão Ernesto
que é militar
não médico

e nas guerrilhas, torturas,
a luta dos duros
o brado nas tumbas...

e dos desaparecidos
murmúrios
em profundas catacumbas
memórias, fuzis e muros;

a vida desolada
da mulher exilada
fruta banida
pela lei do silêncio
na copa do mundo

A Taça e o Cálice
a beleza da cultura
oculta pelo subsolo
à plena vista do espontâneo
revoar do pássaro sagrado

passado ferido, belo pássaro
preso e sangrado no cárcere
por excesso de liberdade
e vontade de viver!

a beleza, porquanto
foi vítima do regime
não floresceu
nem furou a calçada
o nojo, o tédio ou o ódio.

O que é Nova Iorque?


O que é Nova Iorque
senão as luzes da Tijuca, Madureira, Méier
senão cumbuca, mamadeira, meia e cueca
frio, cascalho, viaduto e asfalto...
Cascadura, calçada, calor, camelô;

Senão o batuque dos vagões
que empesteiam o ar de ritmo
ferro, asfalto molhado, conflito
cheiro de orvalho e ovo frito
cheiro de carro e de mijo
de saudade e desabrigo

Que é Nova Iorque
senão as altas luzes do poste
às altas horas na zona norte
às alturas de um buteco 
de frente pra morte?

Que é Nova Iorque
senão a zona norte?

assalto descalço de frente pro crime
sabemos d'oeste a d'or do norte
de sorte que, uma vez de frente
sabemos estar condenados e livres
felizes e inocentes

pois queremos ser nova iorquinos:
feridos, vagamos pelos subúrbios
num ébrio estado atrás do estudo
- atrás dum estágio, de um estádio
dum ensaio, sambódromo, estúdio
do barulho doido do diabo
do velho samba de Estácio

vamos em busca de tudo,
do ouro e do pódio
da Glória e do ódio
do inferno e do Carnaval;

vamos atrás, todos os anos
duma cerveja providencial
dos poucos dias de ócio
e dos dias vários de calo
onde por um galo
se engole tudo
tudo por um gole
de gelo barato

do suor diurno
ao suor noturno
todo dia é igual
e por um galo engulo tudo...

é comer hambúrguer em Marechal
e voltar para casa duro!

Nova Iorque é o poste, é o fio, é a pipa
- é o pasto, o campo e o cheiro de vida!

Nova Iorque é Nova Iguaçu, Bangu
saudade!
é no asfalto o samba, a roda, mocidade...
é toda maldade do mundo
é cidade!

Nova Iorque é o que cheira
e cheira à Liberdade!

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Muralhas de Pandora


Em nós, muros
entre nós, névoa
entre a neblina
Trevas;
querer, ser, agir
tocar o outro
sentir o outro
olhar no espelho
ver-se cercado:
cercado de cercas
coberto de ausência
morada vazia
na caixa de nada.

Beat Me!


Malditos, ingratos, rebeldes e pacíficos
todos macacos malucos, cegos e surdos
que fizeram filhos
loucos e mudos;
mundo, vasto e imundo
quanta perna
trava-língua
me vou para a Argentina
viver de absurdo.

À Norma


Para eles, nós somos baratas
Poesia-barata, homem barata
eles leram Kafka
absurdo cotidiano e tóxico
e a beleza que está
no quintal exótico
do homem primitivo e escroto
que ousou sair do esgoto
para cagar no seu jardim

É um pouco erótico
pisar no outro
como ledo inseto
que te entretém?

Humanismo contraditório
Marquês você sabe quem

Tem ou não tem?
Temos molho, olho por olho
lemos Kafka também;

Temos sífilis e tuberculose
vocês têm escorbuto e nojo

temos tísica, chato e piolho;
temos Llosa, Lorca, Rosa,
Melo Neto e Donoso...
lemos Lombroso, Machado
e o Dostô também...
e a baiana, Cardoso
te garanto que ela tem.

Canto de Cansaço


sábado é dia santo
domingo é pranto
e segunda não é

aproveita o canto
a brisa
a pausa do almoço
o cigarro do café

durma moço
acorde macho
beije a mulher

batom no teu rosto
um gosto de beijo
um terço, um desejo
e uma vida de fé...

tu vinhas na ira
na ira que move
não antes das nove
acorde amanhã!

ilusões de boa vida me forçam à revolta;
não consigo, sem mágoas, revoltar-me...

sou homem comum
trabalhador do povo
grande apreciador
de batidas de coco;

e já frio como o almoço
marmita com ovo
que é a sustância da vida
substância ingrata
cuja a sentença é labuta
que é puta barata
cara de sustentar;

vida que é curta
pra tanta labuta
labuta comprida
- é a vida que há

meus inimigos gostam
de vinho do porto;
José tomaria
se fosse mais grato
vendesse o sapato
e fosse buscar

acordei cedo e não vi o dia
fiz da fé alegria
e fui trabalhar

feliz retornei
sem querer retornar;
dei adeus à Margarida
comi a margarina
deitei-me num canto
e dormi no sofá

tu vinhas na ira
na ira que move
não antes das nove
acorde amanhã!

No Deserto da Espera


No Deserto da Espera
sentei sufocado
segui uma rosa
perdi-me no cravo

cravei-me a caveira
sentei-me amargo
toquei na roseira
sangrei como gado!

cansei-me da espera
levantei de cansado
trilhei um caminho
que não vi ser trilhado!

esperei espelhado no desespero desamparado
não era necessário, vivi e morri;
deus a princípio riu um bocado
na esperança dessa roda que tinha eu dançado
quando enfim consciente, desbocado eu me ri.

Metamorfose do Homem Comum


o homem incerto
de ser um inseto
acorda intraquilo
de ser como Gregor

inquilino incrédulo
caiu em descrédito
por fruto de incesto
o julgam bastardo

Gregório foi à egrégora
por temer virar górgona
foi seguir santo padre
na então congregação

enquanto não vejo
percevejo no altar
não há espelho
onde possa eu mirar

somos todos insignificantes
insetos numa teia
somos apenas grãos de areia
à vontade D'ele comparados
mas antes engrumado
que todo engomado!

confabular mudanças
em casulos comuns
caixões formais;
dar asas às esperanças
e às fábulas medianas
crônicas larvais

metamorfose:
a mudança é perigosa demais

como a audácia do jardineiro
que lê um livro de botânica

do limpador de piscinas
que abre uma loja de filtros

do homem que renega a si
para voar e fugir
da humanidade que o caça.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Isso Não é Arte!


E se eu te dissesse que a música erudita
é fruto impoluto da dita antiga Roma rica
da parte pobre que produzia
distração para ser vendida...

E por acaso você sabia
que o artista, dia a dia,
sempre se prostituía
pra tentar ganhar a vida?

Que mecenas mercenário
vê na arte um bibelô?

Que o melhor empresário
músico de contrato
que não vive de bar em bar
nem sobrevive de salário
corta a carne e serve o som
para milhões de proletários?

Servem todo esse som
cujo dom aburguesado
dá o tom a todo álbum
para ser single comercial
de um próximo carnaval

Venda de alma vira letra
vira letra a ser vendida
e a arte prostituída
prostitui a todo artista;

Pois assim se sobrevive
na selva capitalista
ou é puta ou é dono
ou é pobre elitista

Era a miséria e demência
produto da sobrevivência
que o artista produzia
para sustentar a filha
- sua filha prostituída
a alma de todo artista.

O Louco Assalto do Não Estático


Forças em harmonia, estão ali, vida e morte,
concentradas, conjuradas e conjugadas...
inutilmente hei de estripa-las e contestá-las;

Mas é o drama, é a vida, é a força, a perda, a queda, alegria...
é sucumbir, cair, perder, resistir,
dobrar-se, torcer, sumir, morrer...
desistir, retomar, insistir, ceder;
 
é a vida-poder que atravessa você
e mostra o belo no fogo que lhe queima...
sem lhe queimar querer;

fogo invisível que queima sem arder
o fogo esperto do santo espírito,
espirro por excesso, gotas de prazer!
 
Além de mim e de você
PERDER, VIVER, PODER, MORRER.
 
Como sonho retumbante
a vida atravessa como rio às pressas,
flechas que cortam e furam com furor
ferozes santos que sucumbem ao temor
amor tão potente que causa ardor
flor tão perene nos toma de amor...
 
pedras podres sangram tinta...
tenho dez, tenho cem, tenho trinta!

e o sacrifício solícito parece-nos vício
parece-nos certo
parece suplício
 
parece-me mesmo que somos precipício
príncipes, dionísio,
luz no fim do túnel, tom vivo em desabrigo
apolos, abismos...
 
magnânima magnitude
magnética da juventude...
somos a flor possível
e o lodo necessário,
algo entre o ente e o vário,
o caos e o outro,
o pranto e a lágrima,
a carne e o sufoco,
o suor e a espada!

o poço e a estrada
tomado de assalto
o santo assaltou
a vida consumada!

enfim, hei de estar
entre o ser e o nada
o homem e o moço
o gênio e o louco!

na corda bamba
bambeio um pouco;

vã vaga a sombra
que visitou as entranhas estranhas das sombras astrais...
carne demais, vida demais, luz ressequida por entre os vitrais;
é vida na quietude, vibração prismática, cósmica, dores e paz
- o desejo pela vida ressoava a luz nos excessos d'umbrais

estáticas renasceram em movimentos ovais
as cólicas nas vidas dos úteros ancestrais;

vã dançou à sombra vaga
e visitou as entranhas estranhas astrais...
entranhou-se às entradas
e entupiu-lhe os vasos das cordas vitais!

dobra o sino
deus menino
para nosso bem;

vem de longe
para e fica
morde vento
vira cobra!

como monge
viro flor
comovida
dou a volta

o amor espelhado tomou São Tomé
e bento na fé benzeu a si mesmo
perdoou a si mesmo, elevou-se a si...
É um drama, levantei, aplaudi
e sorri!

terça-feira, 13 de abril de 2021

Corações Mornos


Quando vi tuas pétalas
arrastadas pela calçada

quando ouvi tantas almas
em brandos brados dobradas

quando senti no calor do dia
ameaça no ar iniciada...

percebi que uma ideia morria
já estava despedaçada;

A rosa não sóbria vagava vadia
o sol corpulento sombra virava
e a vida tão triste descalça seguia

O dia foi quente, a noite caiu fria
na tarde sombria, a rosa tão triste
pela varanda vazia sozinha voava;

havia na rua parada luz calma
que sob a curva do horizonte
sonolenta cintilava;

cintilava macilenta
a efervescência duma gente
cuja essência estava morna...

e toda essa gente acabrunhada
reunia em torno da faixa
ideia vadia, morta, anestesiada

ideia sem alma de um dia de chuva
que sob a curva da chuva fria
no horizonte reluzia escorada
a inocência daquela gente
cuja moral não fez morada.

terça-feira, 6 de abril de 2021

O Belo


a beleza não dura muito
e não existe sem alguém

pode ser sol morno
num dia todo chato

nada me convencerá
de que há além do olhar

nada é belo
nem o sol
nem as flores
nem o mar

tantos encontros
de tempos vários
de olhos cantos
no nosso olhar;

nada é belo
nem mesmo o sol
nem mesmo as flores
ou mesmo o mar;

e hei de dizer
deixe-me falar:
belo e sereno talvez seja 
apenas teu par de pernas 
enquanto cantas
os teus encantos
com olhos tantos
que me olham naufragar

como sereia cantas
enquanto bebes meu suor
suor que suponho
estranho e mal-amado
feito saudade no peito
e vontade de navegar.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Entre Saias


Livre de suas anáguas
quero tirar-lhe as dores
beber das tuas águas
provar os teus sabores

navegar-lhe por entre as ondas
para perder-me das mágoas
afogar-me em teus calores
e refrescar nossas carcaças;

e nas águas salgadas
dessas tuas lágrimas
ouvi gemidos líquidos
entre as doces águas
que escorreram por um rio
cujas matas correm baixas;

cercar-te de esplendores
surpresas, magnas fantasias, amores!
quero ser teu doce, teu dengo, suspiro...
nestas nossas memórias
d'horas várias de arrepios!

quero ser do mato teu caipira
da lua luz que te ilumina a lira
você é a sinhá da sina
cuja cena me alumia a sanha
e estranha me fascina!

nua de alma e corpo
cujo mar é tão doce
e a brisa quase sopro
que sussurras à noite...

háguas geladas e sagradas
nestas coisas todas nossas
encosta, montanhas, vales
e rochas;

leves enleios em vossos planaltos
planícies e rodeios:
que os deuses velem vossos seios
por onde passeio os dedos amplos
a caminho dos belos campos
e teus floridos cabelos cheios

meus dedos leves passeiam livres
pelo rubor colorido da tua face
pelas saias e várzeas destes vales
que nos decoram tuas alpivres

monte alto, cume à mostra
envolto em meu braço...
cujo leito te envolve o seio
seio belo e quase casto

te envolvo num braço
na calada duma noite
que derrete no açoite
e aquece num abraço!

dissolve vosso passado
envolto em nosso prado
e me entrega esse agora
onde escreve nossa hora
que viva não se demora.

domingo, 7 de março de 2021

domingo, 17 de janeiro de 2021

Jed, o Gari (e a Misericórdia Invisível)


    Na lanchonete em que me encontrava, ouvi de um policial ao sair, que se retirava do balcão: você tem que aprender a se defender, filho, nem todo mundo é policial e nem todo policial vai te defender. 

    Lá fora, no alto de uma ladeira, trabalhavam 3 ou 4 homens, em frente a uma rampa. Três construtores e entre eles, um gari. Jed, o Gari.

    A obra era para substituir os geradores do parque urbano, produzir energia mais limpa. Curioso para ver a rampa, subi. Subi e no caminho encontrei um sujeito que questionou minha intromissão; volte para casa, ele disse: você não é daqui. E não era, mas continuei a subir. De lá de cima, vi Jed cair, escorregando pelo morro como a roda deitada de uma bicicleta acidentada.

    Segure ele! Disse um, tentei. Jed passou por mim e foi parar no lugar de onde vim. Corri, preocupado, os berros atrás de mim. Ao arrastá-lo, sob o corpo de Jed, uma poça carmesim. Meu Deus, chamem ajuda, eu não sei costurar!

    O primeiro foi o mestre de obras, a debochar: ele que se levante, é sempre assim. Terceiro acidente no mesmo mês, ele bebe e cai nos ladrilhos, meio fio, paralelepípedos e parapeitos. Eu insisti e a vizinha, dona Socorro, ordenou: deixe esse ladrão no chão, ele precisa aprender a parar de dar trabalho! Se caiu, que se levante, como faz toda gente que mora aqui embaixo.

    Liguem para uma ambulância, pro bombeiro, pra rádio! Alguém tenha pena e me ajude a estancar. Jed sorria, pedia colo, me dava a mão, "deixa pra lá". Liguei 193, depois 194, sabia que sozinho eu não o poderia deixar. Chegou 190, ordenando me afastar. "Não se meta com a sarjeta ou quem fica é você". Pôs a mão na "sujeira" e voltou a reclamar - do trabalho que lhe dei, de o pôr pra trabalhar.

    Ninguém parecia se importar, o resgate não viria, eu sentei e esperei, não devia esperar. Levaram o homem e eu sentei sobre o fio da calçada e logo estava sobre um meio horizonte, que fino chovia fina garoa.

    Fui chamado à delegacia e lá me apresentei. "Um mendigo e um homem que quer ser rei". Rei? Pedi à lei que seu ombro movesse. Escorresse pela ladeira alguma segurança ou quem sabe, misericórdia para escorar seu corpo ancorado ao chão. Nenhum ombro para Jed, nenhum caixão! Vi seu corpo estatelado como ovo frito na calçada belamente ladrilhada.

    Então o delegado me disse: escute aqui, soube que você gosta de motos - e ele, aparentemente, de mortos. "Pois bem", continuou, "todo motor precisa de um combustível para desenvolver suas operações. Para isso, precisamos produzir energia, ininterruptamente, todos os dias. Quando você enfiou seus dedos na companhia, você atrasou a usina e isso gerou sujeira, à luz do dia. Resíduo, resina, lixo. Lixo junto, compacto, que você espalhou e A GENTE TEM QUE LIMPAR! Entendeu agora? Por causa daquele bicho que está lá! - e apontou para a cela vazia de Jed. "O que você quer, meu filho? Uma condecoração? Você não salvou o dia, pois perdeu o corpo. Como resultado, não evitou o prejuízo. Armou um circo e não desmontou a lona. Quer uma arma ou um distintivo? Quer terminar um estudo dirigido? Dar uma de São Francisco?".

    Eu olhei para ele e disse: estivéssemos em uma lanchonete, eu bateria no senhor. E se você disser essas coisas outra vez, bato aqui mesmo. Não quero ser policial, quero ser juiz. Assim você não seria meu superior e eu poderia mandar prensar seu nariz numa cela especial.

   Então o delegado riu como policial e debalde declarou: finalmente você aprendeu.

   Não aprendi. A energia da cidade continuou suja. A ladeira continuou alta.

Pizzarias


Somos italianos? Não, mas comemos pizza. Somos pizza? Não, mas comemos italiano. Comida, gente, etnia, prato. Comemos? Comemos. Alguns. Outros deviam - ou devoram, um ou dez, em rodízio. A pizza repartida dá para toda família. Italianos não gostam de rodízio. Paulistas não gostam de pizza carioca. Paulistas gostam de pizza paulista porque paulistas gostam de italianos. Pizza paulista tipo italiana. Italianos não são paulistas, italianos gostam de pizza italiana. Mas a pizza de São Paulo não é italiana como a do Rio de Janeiro: aqui, lavamos dinheiro.

 

E isso é bem italiano.

 

Edifício Redentor


I A Rotina

malandro é o sujeito destro
que escreve torto pelo certo

 
malandrar é escorregar
entre as árvores duma selva
onde a maioria é prego
um bocado cego;
e tosco é o martelo
que prega nossa fé

é sobreviver com classe
sem tomar consciência;
fazer de cada dia arte
e dessa arte, uma ciência

juízo, juizado, juazeiro
e o povo que caminha
de janeiro a janeiro
nas ruas e nas praças
com o chicote estalando
nas vias ensolaradas
de chão quente e camelô

um calor do diabo na calçada descalça
por onde transita ordenado
cordial o povo incivilizado 

inimigos por todos os lados
que caminham rente ao solo
e não enxergam o horizonte
renascer à frente
do caótico fronte


II A Revolta

de repente, toda essa gente, elefante
olha para cima da fonte
entre os reluzentes prédios azuis
da cor daqueles santos olhos
olhares das dores do santo Jesus

mais alto que a calçada rachada
e mais duro do que pão dormido
um edifício não remido
tomou céu de Salvador

o aprisionou numa selva de pedra
desenhada como forno
pra abafar do mar a brisa

e sobe e desce o morro
o pelourinho de Jó...
essa engenharia social
que deixa o povo assim
entre a pó e a Catedral

e olham para o chão
e olham para cima
e pensam no que são
e são o que disseram

pararam para pensar
pensaram em reagir!
- a gente se entende
onde forem dois ou mais

alguns pararam pra pensar
outros pensaram em parar
mas ninguém parou o trem
desta casta operária

tornaram-se novamente um povo
quando pensaram ser um sonho;
brasileiros, que afinal, o que são
senão encantos e desencontros?

IIIO Esquecimento

pois eles sabem
são todos os dias
mas o que foram
quando não eram?

brasilidade é raiz
história na boca do povo
memória que não recorda
de registro, de acordo ou edifício
mas que lembra do toque
da chuva e do feriado
e esquece daquele monte de gente
gente no calor
na calçada camelô
quando tudo fica bem

o povo morre, remorre e revive
pois não vive de passado;
memória é pra quem tem tempo
para recordar sentado

eu tenho sangue do mangue
minha bandeira é de madeira
com cara e cor de verniz
que jogaram na bandeira
para a gente ser feliz!

e a brasilidade
abrasiva, pega fogo
queima a fonte
a barca
a memória, a raiz
e o museu

chama o síndico
é difícil, seu Macedo
inferno é o enredo
danço esse medo
e penso no estrago

sambei, estou feliz
mas logo vai passar
e iremos retornar
e retomar o trabalho
após o término
desse intervalo

e a civilização nos salva novamente do sol
o prédio cinza nos civiliza a alma em andares
dessa tal brasilidade
pelo sacrifício de sangue
nos edifícios que redimem
nossa natureza selvagem.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Urucum


ara cum aro
se aro, ele nada
sem ar eu não aro
e o mundo se acaba

sem êra, nem bêra
colhi minhas pêra
levei-as pra feira
e fui trabalhar

e com ira
com birra
de tanta mentira
me fôra seu Bira
à roça plantar

por desgosto da vida
labuta comprida
vestiu sua calça
saudoso da terra

- deixou Itabira
lá fora chovia
e num ia pará;

e raiou novo dia
de canto se ouvia
cantar sabiá;

assim, sem mais
eu e seu Bira
subimos o morro
e fomos rezá:

"óro sem ôro?
cum ôro, senhoro
de novo né nosso
o terço e o quinto
sem ôro num óro"

do topo do templo
a cruz de Raimundo
caiu nesse mundo
tão vasto e profundo

uma vez ordenado
ordenou Pastor Paulo
buscarmos sinal;
no muro pousado
estaria um pardal

ao invés de pardal
pousou urubu
no escuro do morro
trazendo urucum

saímos insatisfeitos
pensando em direitos
gravados nos textos
evangelho das dores

eu quem sou
senão João?
sem feijão e sem pão
que come cum a mão
o que sobra do chão
lá na Ilha das Flores;

erro cum herdeiro
guerreiro Sendero
com sangue vermelho
sem ôro, sem muro
em cima do mundo;

e assim os patrão
se fôro sem giro:
sem giro, sem gira
com gira, sem lucro
sem lucro, sem acre
sem acre, sem terra
nem meia tigela
de Sierra Maestra

num tem óh!
que é burguês
tem só uh...
outra vez!

ado pelado,
sem espelho gelado
sem pelo,
sem fardo
o colonizado
sem nenhum soldado
sem eira, nem beira
sem dia de feira
sem arado ou trabalho
sem ira, Itabira
sem ouro, com reza
sem Acre, com guerra
e u que nus resta?
guerreiro Sendero
e Sierra Maestra.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

O Homem Civilizado


O homem civilizado
é movido a desprezo
um desprezo de si

ele acende um cigarro
pede um carro pro shopping
pra poder ir curtir

o homem disciplinado
é movido a cigarro
e fumaça de carro

ele tem raiva de preto
e tem raiva de pobre
seu espelho é quebrado...

um homem bem empregado
com uma conta no banco
tem razão de existir

cabelo bem arrumado
o aluguel atrasado
e o filho por vir

o homem desempregado
sem dinheiro no bolso
e uma agenda a cumprir

está desesperado
não encontra resposta
já não sonha acordado
já não é tão legal

e desprovido de tudo
com seu filho doente
vai pular carnaval...

Deus é Humor


O universo veio do nada
o nada escondido em tudo
tudo contido no todo
e o todo que está em cada

o homem, no meio, tolo
da vida, energia e alma
fez escada

o tempo é erosão
devora tudo
devolve ao chão

o desespero
a entropia
o cordeiro
Ozymandias

não o tempo
ou a queda
nem a morte
ou a vida:
atemporal
só a ironia.