segunda-feira, 5 de abril de 2021

Entre Saias


Livre de suas anáguas
quero tirar-lhe as dores
beber das tuas águas
provar os teus sabores

navegar-lhe por entre as ondas
para perder-me das mágoas
afogar-me em teus calores
e refrescar nossas carcaças;

e nas águas salgadas
dessas tuas lágrimas
ouvi gemidos líquidos
entre as doces águas
que escorreram por um rio
cujas matas correm baixas;

cercar-te de esplendores
surpresas, magnas fantasias, amores!
quero ser teu doce, teu dengo, suspiro...
nestas nossas memórias
d'horas várias de arrepios!

quero ser do mato teu caipira
da lua luz que te ilumina a lira
você é a sinhá da sina
cuja cena me alumia a sanha
e estranha me fascina!

nua de alma e corpo
cujo mar é tão doce
e a brisa quase sopro
que sussurras à noite...

háguas geladas e sagradas
nestas coisas todas nossas
encosta, montanhas, vales
e rochas;

leves enleios em vossos planaltos
planícies e rodeios:
que os deuses velem vossos seios
por onde passeio os dedos amplos
a caminho dos belos campos
e teus floridos cabelos cheios

meus dedos leves passeiam livres
pelo rubor colorido da tua face
pelas saias e várzeas destes vales
que nos decoram tuas alpivres

monte alto, cume à mostra
envolto em meu braço...
cujo leito te envolve o seio
seio belo e quase casto

te envolvo num braço
na calada duma noite
que derrete no açoite
e aquece num abraço!

dissolve vosso passado
envolto em nosso prado
e me entrega esse agora
onde escreve nossa hora
que viva não se demora.

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