Na lanchonete em que me encontrava, ouvi de um policial ao sair, que se retirava do balcão: você tem que aprender a se defender, filho, nem todo mundo é policial e nem todo policial vai te defender.
Lá fora, no alto de uma ladeira, trabalhavam 3 ou 4 homens, em frente a uma rampa. Três construtores e entre eles, um gari. Jed, o Gari.A obra era para substituir os geradores do parque urbano, produzir energia mais limpa. Curioso para ver a rampa, subi. Subi e no caminho encontrei um sujeito que questionou minha intromissão; volte para casa, ele disse: você não é daqui. E não era, mas continuei a subir. De lá de cima, vi Jed cair, escorregando pelo morro como a roda deitada de uma bicicleta acidentada.
Segure ele! Disse um, tentei. Jed passou por mim e foi parar no lugar de onde vim. Corri, preocupado, os berros atrás de mim. Ao arrastá-lo, sob o corpo de Jed, uma poça carmesim. Meu Deus, chamem ajuda, eu não sei costurar!
O primeiro foi o mestre de obras, a debochar: ele que se levante, é sempre assim. Terceiro acidente no mesmo mês, ele bebe e cai nos ladrilhos, meio fio, paralelepípedos e parapeitos. Eu insisti e a vizinha, dona Socorro, ordenou: deixe esse ladrão no chão, ele precisa aprender a parar de dar trabalho! Se caiu, que se levante, como faz toda gente que mora aqui embaixo.
Liguem para uma ambulância, pro bombeiro, pra rádio! Alguém tenha pena e me ajude a estancar. Jed sorria, pedia colo, me dava a mão, "deixa pra lá". Liguei 193, depois 194, sabia que sozinho eu não o poderia deixar. Chegou 190, ordenando me afastar. "Não se meta com a sarjeta ou quem fica é você". Pôs a mão na "sujeira" e voltou a reclamar - do trabalho que lhe dei, de o pôr pra trabalhar.
Ninguém parecia se importar, o resgate não viria, eu sentei e esperei, não devia esperar. Levaram o homem e eu sentei sobre o fio da calçada e logo estava sobre um meio horizonte, que fino chovia fina garoa.
Fui chamado à delegacia e lá me apresentei. "Um mendigo e um homem que quer ser rei". Rei? Pedi à lei que seu ombro movesse. Escorresse pela ladeira alguma segurança ou quem sabe, misericórdia para escorar seu corpo ancorado ao chão. Nenhum ombro para Jed, nenhum caixão! Vi seu corpo estatelado como ovo frito na calçada belamente ladrilhada.
Então o delegado me disse: escute aqui, soube que você gosta de motos - e ele, aparentemente, de mortos. "Pois bem", continuou, "todo motor precisa de um combustível para desenvolver suas operações. Para isso, precisamos produzir energia, ininterruptamente, todos os dias. Quando você enfiou seus dedos na companhia, você atrasou a usina e isso gerou sujeira, à luz do dia. Resíduo, resina, lixo. Lixo junto, compacto, que você espalhou e A GENTE TEM QUE LIMPAR! Entendeu agora? Por causa daquele bicho que está lá! - e apontou para a cela vazia de Jed. "O que você quer, meu filho? Uma condecoração? Você não salvou o dia, pois perdeu o corpo. Como resultado, não evitou o prejuízo. Armou um circo e não desmontou a lona. Quer uma arma ou um distintivo? Quer terminar um estudo dirigido? Dar uma de São Francisco?".
Eu olhei para ele e disse: estivéssemos em uma lanchonete, eu bateria no senhor. E se você disser essas coisas outra vez, bato aqui mesmo. Não quero ser policial, quero ser juiz. Assim você não seria meu superior e eu poderia mandar prensar seu nariz numa cela especial.
Então o delegado riu como policial e debalde declarou: finalmente você aprendeu.
Não aprendi. A energia da cidade continuou suja. A ladeira continuou alta.
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