terça-feira, 25 de agosto de 2020

CIVILIDADES

            

            Um indiano resfriado sentou-se à mesa de um bar no coração de Londres e serviu uma xícara com chá branco, enquanto um britânico, curioso, observava. Reparou que o estrangeiro punha a água quente ao tempo em que sentava na cadeira e também na curva que faziam seus dedos em torno da xícara.

            Então, de curioso, o indiano passou logo a exótico: infusionou ali mesmo água de rosas e, surpreso por tal feito inusitado, o inglês, sentado em frente ao balcão, tomou um gole do seu chá preto. – Aquele tal é ousado, o paladar deve ter estragado depois de um ou dois tragos, ou quem sabe foi toda aquela pimenta que o povo dele aguenta comer.

         Não satisfeito com seu chá, o homem indiano, em seu elegante traje preto, moeu sobre o mesmo grãos de pimenta do reino. – Sabia que era uma questão de pimenta, mas ele está no Reino, afinal. É livre para unir ao seu chá o que bem quiser experimentar – matutou o outro.

            Então, de estrangeiro foi à estranho, quando de pronto adicionou canela em pau àquele chá tradicional. – Mas o que é isso? – meditou perplexo o inglês, enquanto esfriava seu chá. Pôs então anis e o outro não mais quis olhar; não pôde acreditar quando o estranho pôs noz-moscada no chá.

            A tolerância, tal como a pressão do pálido londrino, caiu significativamente. Então o indiano interviu mais uma vez apelando à civilidade do lorde inglês ao misturar no chá um punhado de açafrão. – Aí não! – pensou o homem em suas largas calças, enquanto firme apertava seu chapéu contra a mesa, como manda a boa etiqueta.

            No entanto, seu nojo logo se tornou buliçosa ira quando o indiano fora de exótico à selvagem, servindo-se de inúmeras colheres de açúcar refinado. Grosso, o anglo angustiado pôs seu chapéu sobre a cabeça e perdeu as estribeiras: – Mas o que é isso, seu porco incivilizado? Onde estão os seus modos? Essa é uma tradicional casa de chá londrina, não um lugar onde se vêm para tomar misturas e lavagens porcas como esta tua sobre a mesa!

            O silêncio ocupou a chaleira. A mosca, antes inquieta, cruzou o salão e pousou sobre a noz. Calmamente, o homem então adicionou cravo-da-índia ao chá sob o azul daquele céu de uma Londres primaveril e disse: – Você acha que este é seu reino? Acha que tem o direito de regular o meu chá? Qual será a próxima coisa que mo a de regular? As ceroulas que para dormir visto ou meu visto para viajar? E as meias minhas? Está boa e colorida ou comprida em demasia? Preferíeis vossa senhoria que eu a estique até a canela? Olhe bem para esse céu anil... eu vim por entre as nuvens voando quando por engano fui levado ao Brasil! Caro senhor, você sabe o quanto esta viagem me custou? Vi papoulas florescerem como erva daninha no meu jardim e então eu vim faminto para cá... agora querem mandar na maneira em como devo tomar o meu chá? Quem é você, por acaso, dono das ervas? O chá é meu e eu adoçarei até que me faça gosto... de que vale a liberdade de um homem se ele sequer pode temperar como bem entender seu chá em uma nobre casa? Melhor faria tendo ficado na Índia, onde respeitam minha casa e casta, ao invés de com gente incivilizada e selvagem como vocês britânicos, que acham que podem mandar e desmandar em tudo e todos, instituir o que é e o que não é tradicional, bom e belo, ruim e feio.

            O britânico pisou no freio: tinha agora olhar magrelo e arrependido. Disse então em baixo tom: – Desculpe-me, senhor, não vale a pena fazer guerra por um chá, tampouco por especiarias.  Então, mais calmo, o indiano replicou: – Mas já era tempo de vocês perceberem isso! Não adianta dizer uma liberdade e vender outra!

            E assim o tradicional chá preto daquele lorde esfriou. Achara-o amargo demais após esfriar e resolveu então descartá-lo. O índio pegou seu daime e tomou num vigoroso gole só, ao passo que a gripe passou. Depois de pagar pelo chá não tomado, fora o britânico com suas libras para casa.

            O tempo fechou e a chuva caiu. Sua esposa lhe preparou um chá para o acolher naquela finada tarde de céu acinzentado; acidentado e confuso, sorriu com os típicos dentes amarelados a ironia da corisa que lhe escorria pelo nariz. Resfriado em pleno sábado, não conseguiu do chá verde extrair nenhum sabor.

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