Um indiano resfriado sentou-se à mesa de um bar no coração de Londres e serviu uma xícara com chá branco, enquanto um britânico, curioso, observava. Reparou que o estrangeiro punha a água quente ao tempo em que sentava na cadeira e também na curva que faziam seus dedos em torno da xícara.
Então,
de curioso, o indiano passou logo a exótico: infusionou ali mesmo água de rosas
e, surpreso por tal feito inusitado, o inglês, sentado em frente ao balcão,
tomou um gole do seu chá preto. – Aquele tal é ousado, o paladar deve ter
estragado depois de um ou dois tragos, ou quem sabe foi toda aquela pimenta que
o povo dele aguenta comer.
Não
satisfeito com seu chá, o homem indiano, em seu elegante traje preto, moeu sobre
o mesmo grãos de pimenta do reino. – Sabia que era uma questão de pimenta, mas
ele está no Reino, afinal. É livre para unir ao seu chá o que bem quiser
experimentar – matutou o outro.
Então,
de estrangeiro foi à estranho, quando de pronto adicionou canela em pau àquele
chá tradicional. – Mas o que é isso? – meditou perplexo o inglês, enquanto
esfriava seu chá. Pôs então anis e o outro não mais quis olhar; não pôde
acreditar quando o estranho pôs noz-moscada no chá.
A
tolerância, tal como a pressão do pálido londrino, caiu significativamente.
Então o indiano interviu mais uma vez apelando à civilidade do lorde inglês ao
misturar no chá um punhado de açafrão. – Aí não! – pensou o homem em suas
largas calças, enquanto firme apertava seu chapéu contra a mesa, como manda a
boa etiqueta.
No
entanto, seu nojo logo se tornou buliçosa ira quando o indiano fora de exótico
à selvagem, servindo-se de inúmeras colheres de açúcar refinado. Grosso, o
anglo angustiado pôs seu chapéu sobre a cabeça e perdeu as estribeiras: – Mas o
que é isso, seu porco incivilizado? Onde estão os seus modos? Essa é uma
tradicional casa de chá londrina, não um lugar onde se vêm para tomar misturas
e lavagens porcas como esta tua sobre a mesa!
O
silêncio ocupou a chaleira. A mosca, antes inquieta, cruzou o salão e pousou
sobre a noz. Calmamente, o homem então adicionou cravo-da-índia ao chá sob o
azul daquele céu de uma Londres primaveril e disse: – Você acha que este é seu
reino? Acha que tem o direito de regular o meu chá? Qual será a próxima coisa
que mo a de regular? As ceroulas que para dormir visto ou meu visto para
viajar? E as meias minhas? Está boa e colorida ou comprida em demasia? Preferíeis
vossa senhoria que eu a estique até a canela? Olhe bem para esse céu anil... eu
vim por entre as nuvens voando quando por engano fui levado ao Brasil! Caro
senhor, você sabe o quanto esta viagem me custou? Vi papoulas florescerem como
erva daninha no meu jardim e então eu vim faminto para cá... agora querem mandar
na maneira em como devo tomar o meu chá? Quem é você, por acaso, dono das
ervas? O chá é meu e eu adoçarei até que me faça gosto... de que vale a
liberdade de um homem se ele sequer pode temperar como bem entender seu chá em
uma nobre casa? Melhor faria tendo ficado na Índia, onde respeitam minha casa e
casta, ao invés de com gente incivilizada e selvagem como vocês britânicos, que
acham que podem mandar e desmandar em tudo e todos, instituir o que é e o que
não é tradicional, bom e belo, ruim e feio.
O
britânico pisou no freio: tinha agora olhar magrelo e arrependido. Disse então
em baixo tom: – Desculpe-me, senhor, não vale a pena fazer guerra por um chá,
tampouco por especiarias. Então, mais
calmo, o indiano replicou: – Mas já era tempo de vocês perceberem isso! Não
adianta dizer uma liberdade e vender outra!
E
assim o tradicional chá preto daquele lorde esfriou. Achara-o amargo demais após
esfriar e resolveu então descartá-lo. O índio pegou seu daime e tomou num
vigoroso gole só, ao passo que a gripe passou. Depois de pagar pelo chá não
tomado, fora o britânico com suas libras para casa.
O tempo fechou e a chuva caiu. Sua esposa lhe preparou um chá para o acolher naquela finada tarde de céu acinzentado; acidentado e confuso, sorriu com os típicos dentes amarelados a ironia da corisa que lhe escorria pelo nariz. Resfriado em pleno sábado, não conseguiu do chá verde extrair nenhum sabor.
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