destaque para a pipoca:
eram orquídeas no canto da praça
que saltavam da barraca para fora;
o azul primaveril da gangorra
o balanço novo em folha
o ferro prateado ainda soldado
o orgulho que reluzia dia afora
todos iam ao campo àquele tempo
reunidos em rodas para jogar bola;
e o tal bom tempo também passou
e agora?
agora
o campo está abandonado
uma praça que não resistiu
ao custo de erodir
desapontado
sigo entre os botões não desabrochados;
os brinquedos desabrigados
se aglutinam à minha volta:
ilusões de restauração me forçam à revolta;
não consigo, sem mágoas, revoltar-me:
olho infértil o terreno desamparado
latão de lixo amarelo enferrujado
velha lata em formato de palhaço:
são ruínas de um reino desarrumado
de uma infância cujo menino foi rei
o antes vívido azul está agora desbotado;
o banco verde claro manchado de cloro
como se a chuva a cloro o tivesse lavado
o botão bonito desabotoado
a botina na latrina de um lixo;
o cadarço de tênis desamarrado
arremessado alto sobre o fio
o velho escorregador de ferro
foi de vermelho à alaranjado
laranja podre da qual sobrou somente a casca
e sementes que não vingaram pelo solo à jaza
a gangorra remoída, toda ela amolecida
tomada por poeira e comedores de madeira
unidas e aguerridas
as flores margaridas
à toda visão tomada
por tonéis em tons pastéis
tudo mais fora esquecido
enrolado no cartaz puído
desta terra ressequida
onde há tantas jazidas
todas elas em anéis
cor de disenteria na areia que foi castelo
desenterrado sem pudor à plena vista;
as pegadas na terra molhada marcada pelo chinelo
o orvalho eleva o olfato ao odor de uma velha brisa
balanços pendurados por velhas correntes de cobre
cobre enferrujado, marrom profundo;
pedras hostis, hastes quebradas e argolas rompidas
barras amassadas, peças descoloridas
mesas de jogos no concreto já apagadas
a pegada do tempo impressa na calçada
bancos com vigas há muito expostas
tampas de breja na mesa de apostas
contornada ela por suas escadas
à Igreja antes respeitada
nada sobrara senão o portão;
fora um dia alegria de dar graças
está hoje tomada toda pelo lixão
escoro-me sobre as baixas cercas
observo a cruz sob a frágil luz
que emana a manta da Santa da Conceição,
agachado sobre o muro de um mundo
cruzado ante a crise da divisão
calçadas rachadas, tomadas por manchas
poeira e sujeira
resíduos demais;
ruídos do impacto da ação desumana
duma espécie errante de erros fatais
e sobre os círculos dos bancos antes brancos
pixos;
vícios desse doentio cenário pós-apocalíptico
sob o avermelhado céu de uma tarde de outono
uma criança salta entre os bancos sujos
cobertos eles todos por limos e musgos
e desfrutando de um momento de emérito gozo
seguiu o infante tomado pelo instante
daquele tosco pedaço do próprio paraíso
proibido e perdido, tal como nascido, em Milton
a infância na esquina se põe
com o sol no distante horizonte
à envelhecida nostalgia nenhuma fonte
apenas a lembrança de ontem
que hoje decompõe a imagem no front
decupada para fora desta sanha culpada
que como se gente fosse fôra lá deixada
às tortas
para ser decapitada
entre as árvores mortas
rodeadas por caixas
papelão velho inútil
cobertas por cascas
inférteis ao solo
nesse quadro sem moldura
antigo e empoeirado
preguei torto na parede o velho retrato:
um moleque de rua
cujo castelo encantado fôra, senão pão
a promessa de um sonho
desses que a padaria jogou fora
desses com o qual sonhara João
João também fora jogado no lixo
e nele encontrou seu pão;
- Obrigado, meu pai, por me dar de comer,
amanhã vou ao parque se o tempo ceder
disse ele a si mesmo e se pôs a sorrir
mas choveu muito e já era inverno;
gripado, João foi assim mesmo
e essa foi a última vez que o vi
naquela praça morta
cuja graça fôra um dia
colorida e saudosa infância minha.
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