domingo, 15 de novembro de 2020

Morte e Vida de um Silva


I

os pinos coloridos
deixados na estação
onde meu pai foi visto
o levaram pra prisão

meu pai não sobreviveu
ao Carandiru de Bangu I

àqueles pinos coloridos
deixo estes escritos:
me chamo João
não sou santo
e nem sou Cristo

II

a família unida
a arma dispara
a gente suspira

deixo o corpo morrer
a cada ar que puxo;
sinto o rato me roer
o nó desde o bucho

ouço o assoalho ranger:
a casa trepida
e a mesa vira;

cabeça baixa
mãos nos ouvidos
a gente se abaixa
direto pro chão

todos para baixo
o morro vai abaixo
facção por facção

"Deus está morto
Darwin faz as leis"
capítulo 4, versículo 3

III

guardo todo oxigênio
que consigo esconder
pois o ar que respiro
por aqui nos faz falta;

pegaram o seu Joca
botaram a culpa
na carteira vazia
e no celular que devia
ser pistola escondida

seu Joca fora culpado
de portar um celular caro;
pobre desarmado
não tem nada caro
e não tem mesmo
atestado pelo Cabo;

serviço de televisão
e internet à cabo
é com o próprio

o pobre que trabalha
só ganha o que perder

IV

tentei viver e esquecer do passado
mas eu cansei de pegar no pesado
e encarar perpétua a morte de lado;
se é para encarar a morte
que seja de frente
e que eu seja bem pago

por isso eu larguei a vida de trabalhador
para virar corredor e ser atleta da favela

eu vendia quentinhas
e todos os dias
ia passando nas vilas
entregando encomendas

pegava comanda por comanda;
agora pego comando do Comando
e entrego as encomendas
de Comendador à Japeri;

um dia como esses
desci pro asfalto,
tomei um esculacho
e perdi minha carga

Buscapé a carga
pra não queimar meu filme
sobreviver aqui
é ir morrendo a cada crime

V

no morro onde moro
se morre rápido;
morro até num bueiro
mas não sem dinheiro

vendo drogas e munição
para comprar o meu caixão
e cerra-lo bala à bala

vou te passar a visão:
fique tentando
ou morra milionário;
ladrão por ladrão
antes fiel soldado
que estelionatário

se é facção por facção
que se foda o Estado
porque bala de fora da lei
nunca acertou meu primo;

e eu que morro
cinco vezes a cada hora
já estaria morto
não estivesse escrevendo agora
mas meus irmãos
são analfabetos

VI

mamãe já me dizia:
se não puder dar presunto todo dia
não dê presunto nenhum dia
e hoje em dia
o que mais tem
é presunto por aí;

em marcha lenta
subi a ladeira
para os caras
me verem passar

parei,
os homens param
quem não pode
pagar

passei,
os caras passam
quem não pode
passar

suei,
na próxima
quem sabe
não subo;

eu nasci e cresci
em uma ocupação irregular
no meio da lama

da lama ao caos
só volto pra lama
com um presunto nas mãos.

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