I
os pinos coloridos
deixados na estação
onde meu pai foi visto
o levaram pra prisão
meu pai não sobreviveu
ao Carandiru de Bangu I
àqueles pinos coloridos
deixo estes escritos:
me chamo João
não sou santo
e nem sou Cristo
II
a família unida
a arma dispara
a gente suspira
deixo o corpo morrer
a cada ar que puxo;
sinto o rato me roer
o nó desde o bucho
ouço o assoalho ranger:
a casa trepida
e a mesa vira;
cabeça baixa
mãos nos ouvidos
a gente se abaixa
direto pro chão
todos para baixo
o morro vai abaixo
facção por facção
"Deus está morto
Darwin faz as leis"
capítulo 4, versículo 3
III
guardo todo oxigênio
que consigo esconder
pois o ar que respiro
por aqui nos faz falta;
pegaram o seu Joca
botaram a culpa
na carteira vazia
e no celular que devia
ser pistola escondida
seu Joca fora culpado
de portar um celular caro;
pobre desarmado
não tem nada caro
e não tem mesmo
atestado pelo Cabo;
serviço de televisão
e internet à cabo
é com o próprio
o pobre que trabalha
só ganha o que perder
IV
tentei viver e esquecer do passado
mas eu cansei de pegar no pesado
e encarar perpétua a morte de lado;
se é para encarar a morte
que seja de frente
e que eu seja bem pago
por isso eu larguei a vida de trabalhador
para virar corredor e ser atleta da favela
eu vendia quentinhas
e todos os dias
ia passando nas vilas
entregando encomendas
pegava comanda por comanda;
agora pego comando do Comando
e entrego as encomendas
de Comendador à Japeri;
um dia como esses
desci pro asfalto,
tomei um esculacho
e perdi minha carga
Buscapé a carga
pra não queimar meu filme
sobreviver aqui
é ir morrendo a cada crime
V
no morro onde moro
se morre rápido;
morro até num bueiro
mas não sem dinheiro
vendo drogas e munição
para comprar o meu caixão
e cerra-lo bala à bala
vou te passar a visão:
fique tentando
ou morra milionário;
ladrão por ladrão
antes fiel soldado
que estelionatário
se é facção por facção
que se foda o Estado
porque bala de fora da lei
nunca acertou meu primo;
e eu que morro
cinco vezes a cada hora
já estaria morto
não estivesse escrevendo agora
mas meus irmãos
são analfabetos
VI
mamãe já me dizia:
se não puder dar presunto todo dia
não dê presunto nenhum dia
e hoje em dia
o que mais tem
é presunto por aí;
em marcha lenta
subi a ladeira
para os caras
me verem passar
parei,
os homens param
quem não pode
pagar
passei,
os caras passam
quem não pode
passar
suei,
na próxima
quem sabe
não subo;
eu nasci e cresci
em uma ocupação irregular
no meio da lama
da lama ao caos
só volto pra lama
com um presunto nas mãos.
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