segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Numa Noite Suja


Um corpo caído na varanda
um trago da maldita cana

Oito Presentes na sacada,
um velho copo
cheio de mágoa

um pouco de vinho do Porto
nesse copo meio vazio

a noite agitada me leva a brisa,
me chove os olhos,
me toma o fôlego

dentro da casa,
o cinzeiro em brasa
vinho tinto pelo carpete
e a sacada molhada
de vinho seco

o trigo no pão
o pão na mesa
a mesa na sala
o estrago no corpo

o frágil frasco sem conteúdo
nenhum gole ou faca à vista

Minha varanda cheia de sangue
minha Miranda toda sem jeito

minha surpresa no carro
e a dela,
no chão.

Fumo a rosa acesa
que trago no peito.

Carta por abrir,
a rosa vai ao chão
e o cravo busca
algo para se cravar;

E lá sou eu sujeito
de entregar flores
ou abrir cartas?

Sou lá eu homem
de sorrir ou amar?

Taco a taça pela escada
saco minha velha saída

descerei pela sacada
a expirar o fôlego
que me deu a taça

respiro
minha última
fumaça.

Sufoco o socorro dos berros
na madrugada sem ecos

estufo o peito,
socorro o sufoco
e dou-me aos becos

catam-me do lixo
ensacam os restos
longa noite pela manhã

perdão por não chegar às oito
bebi demais ao parar no posto

e aquele cigarro
ficou por ser fumado.
Duplo suicídio
e nenhum culpado.

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