sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Não é um poema


Você chega em sua casa, toma seu banho quente, esquenta a comida no microondas, senta-se naquela poltrona confortável e assiste ao jogo na sua televisão de 50 polegadas.

De repente, bum.

Você está desempregado.

Luz é caro.
Gás é caro.
A poltrona vale
uma ida ao mercado
e você está ferrado.

E então, milagre: você está empregado.

Mas luz ainda é caro,
gás ainda é caro.
Você não pode assistir ao jogo,
você não pode andar de carro;
não pode pagar o colégio
do seu filho em Ricardo.

E então, bum...
Você está vendendo drogas:
o gás está sendo pago,
a poltrona está a salvo
e o jogo começa às 20:00.

Já não está desesperado
e agora todos respeitam
quem antes era "safado".
O saldo?
Carro
Internet
TV a cabo
Vida confortável...

E antes que você me condene:
abriria mão do videogame
ou suportaria o som da sirene
para tomar seu banho quente
quando viesse um dia frio?

Anos a frio no serviço para passar fio
meses no transporte cheio para vender fone
vendas e vendas sem ter você o seu telefone
décadas trabalhando até às 19:00 por algum homem:
tudo isso alimenta uma fome
o custo desonesto a se pagar pelo risco:
o risco do homem disponível
a abandonar essa honestidade indigna
de sequer poder ver uma World Series;

Lazer, prazer, mulher
o homem quer
o homem bum.

A Disney é para todos
basta ser Walt.




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