pausa para respirar: vivemorre, grão. Brota e anota...
Como água, você é atravessado sem ser ferido - e reflete de volta, como espelho d'água, o que te atravessou.
O perdão suprime a dor.
Nada pega nada, nunca fui atingido, a dor foi um olhar de autopiedade sobre si - quando, desde o princípio, sabe-se: não se quebra um espelho d'água, só um de vidro.
A lente é o olhar que se quebra; o humor aquoso é indestrutível. Um olhar sobre si: não há dor, não há dilaceração e nem mesmo cicatriz. Sou ator, plástico, sou atriz.
A água absorve e expele. Cobre sobre um manto de cura.
Nem mesmo eu posso me atingir. Só posso crer na ilusão de ser atingido.
Choverá, fluirá, gotejará, secará... eu sou a última gota seca, vida que brota do nada, das raízes rachadas que pintam de vida as fachadas mortas daquele sertão. Rachaduras perpassadas por luz no centro da terra, luz que brota como rosa da escuridão.
Vida certa, no centro do seio, encontro entre luz e escuridão. Do foco morto e da observação à ação, vida, ânimo, movimento, criação. Sou sincero e esse é meu selo... A última gota no solo seco. A primeira gota que espremi do cacto: ativo, vivo, da morte à ressurreição.
A sombra vaga para dar sentido à forma.
A luz rebola onde há condição. Mostrará a todos nós: sou água de enxurrada, ressaca, arrebentação. Chuva gotejando, solo sangrando, sobrando, tomando de praia a vida do mangue. Sou vermelho, sou sangue, sou gota em restituição. Vida que brota de dentro, do fundo... vida que nasce em improvável mundo.
Do fundo ao centro, no centro do fundo: tudo está aqui e lá, simultaneamente, sou eu o tal Raimundo: mais vasto que nefasto, signo da imensidão, vida que deixa rastro, ritmo que pulsa são - na pausa cardíaca de um singelo coração.
A sombra vaga para dar sentido à forma. A luz move o ponteiro, é o sol. Da morte a vida, da lua, o signo: mãe, coração, menino.
"Nenhuma árvore chega ao céu sem que suas raízes toquem o inferno."

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