quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Colônia de Cegos

I

Suplico ao sacerdote Glauco:

onde está tu, digna liberdade?
o sol é geométrico...
que forma tem o céu?
e a pomba, que cor tem?

seria uma ironia ter frágil a íris escura
ou seriam os escuros todos daltônicos?

busco resposta no eco desse beco vazio
túneis verticais sem saída, voz ou vida:
mas não há céu, não há voz, não há cor;

onde está o meu valor?
atravessado por uma parede branca;
nada vejo, sinto dor:
onde está o meu valor?

uma luz
é o pastor
e ela é branca...
mas como esquenta;
a visão desorienta!
dá-me aqui o teu calor!

II

Aqui estou e sinto dor
onde está o meu valor? 

- aqui, só, quem sou?
e meu povo, onde está?
em toda parte, 
em todo lugar;
toda gente
toda frente
toda franja elementar

toda massa, contingente,
excedente, militar;
meu povo está em toda parte
mas não possui nenhum lugar

ter, essencialmente
é um direito deles sobre nós:
indago-me revolto
- onde está a nossa voz?

esperando outra vez
uma nova abolição
e que outra vez então
surja sobre esta turba
a sarjeta da insurreição.


Gabriel Cardozo

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