quinta-feira, 5 de novembro de 2020

A Rosa no Centro


a rosa aflora onde há beleza
a beleza vem da relação
entre o coração e a natureza

ela cresce no verão
com o sol se vai mais velha
nova, ela trasborda
na presença da primavera

descansa, pede sombra, sobrevive e recomeça:
no outono é flor de fogo
e amarela, perde o tom;
de vermelha a marrom, fica branca como velha

morre, vira som, volta ao sol e nasce bela:
nasce rosa, doce flor, que renasce com ela;

é a primeira cor
o primeiro odor
a vista que toma a tela

folha usada, feita velha
nova vida, flor do campo
és camélia, és morango
dança doce tango à boca

rosa nova, novo amor
és toda e somente bela
és selvagem outra flor
vermelha feito guerra

e da semente nua nasce;
és virgem espinho belo
que negro me atravessa
a pele e rompe a carne;

o espinho me torce
o espírito entregue:
me come a cara em festa
e no peito o que me resta
pois é esta a natureza
da beleza canibalesca

vai ao fundo
cava e tira
planta outra
minha rosa;

chove
molha
cresce
desabrocha;

gira a Terra, vida nova
vira outra, toda forte:
é a rosa, toda esfera
é o brilho no olhar da fera
é a manhã depois da noite
a potência depois da tarde
a vida depois da morte
o amante depois da espera

a espira gira no centro
entre a compaixão
e o julgamento
ficando tão apenas
entre Atenas e Afrodite:
há quem duvide
e quem acredite!

sei quem eres e és quem eras:
eros em eras e rezas de rosas,
cestos, seios, baldes e rodas
aros e lousas, mães e esposas

és quem és, sombra e luz, elfa
som e alma, fúria calma, praia
um encontro, um alento, doce fé;
és pétala ao vento
um carnaval lento:
uma flor, uma moça, Tiphareth...

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